Grão Mogol by Marioh
   Vou de táxi!

Sexta-feira passada, depois de duas semanas ininterruptas de fechamento de edições - duas revistas, para ser mais exato - o chefe ordenou, às 17h: "Vamos embora JÁ!!!". Não precisou dizer duas vezes. Todo mundo na rua rapidinho. Sem saber muito bem pra onde ir, acabei na porta do Espaço Unibanco e aproveitei para conferir a estréia do filme hype/cool/modinha do momento, Shortbus (2006) - sensação da Mostra Internacional de Cinema paulistana e succès d'escandale em festivais (chegando a abocanhar alguns prêmios) e cidades onde foi exibido.

Trata-se de fita "polêmica" (ô palavrinha...). Por conter sequências de sexo explícito, foi descartado e classificado como pornográfico pelos caretas de plantão. Como as tais sequências acontecem sobretudo entre rapazes, a comunidade gay carimbou o seal of approval: "Tuuudo, bi!". Como a obra pretende discutir relacionamentos afetivos na Nova York sob a sombra apocalíptica do 11 de setembro, o rebanho que saca comemora sua ousadia, seriedade e atualidade. Por tudo isso, Shortbus vem cuidadosamente embrulhado para presente. Mesmo com o atraso de dois anos, melhor não dizer que não se gosta de um presente, certo?

Há uma esfuziante abertura misturando a Manhattan de maquete/cartoon (expediente esperto que funciona como  assinatura do diretor John Cameron Mitchel e amarra todas as pontas da trama), um rapaz tentando praticar auto-fellatio (e conseguindo) e um casal em nervosas acrobacias sexuais. É um começo promissor para um desenrolar nem tanto assim.      

Temos Sofia (Sook-Yin Lee), terapeuta sexual de casais, em crise pessoal e profissional porque, afinal, ela mesma não consegue atingir um orgasmo (na cultura que ensinou as mulheres a lutarem pelo direito ao orgasmo, isso é um sacrilégio). Seu marido Rob (Raphael Barker), entusiasta do sexo virtual. Os Jamies, (Paul Dawson e PJ De Boy, namorados na vida real durante as filmagens), casal gay que procura a terapeuta porque decidiu abrir a relação depois de cinco anos monogâmicos (permissão clínica para se ir além do papai e mamãe?). Severin (Lindsay Beamish), dominatrix vestida de couro e armada com chicotes, porém envergonhada de seu verdadeiro nome (a revelação do segredo é a melhor piada do filme). Mais que tudo existe Shortbus, um sex club dirigido pelo performático Justin Bond (seu cabaret act é um belo finale, ainda que soe um tanto deslocado e sweet demais para toda a sacangem proposta anteriormente). Por lá, vale tudo, inclusive e sobretudo homem com homem e mulher com mulher. É onde todos os personagens se encontram e chafurdam não apenas em sexo desenfreado com vários parceiros, mas também em suas encucações e neuroses prediletas (estamos na América, não se esqueça).

É um prato cheio para adeptos da psicanálise - muita gente se declara afetada em um nível transformador depois de ver o filme (!!!). Para espíritos práticos (cínicos?) trata-se de um blá-blá-blá mais longo que uma sessão no analista intercalado com VERY HOT SECENES.

Uma coisa é certa, Shortbus é muito bem feito, tem bom ritmo, bela direção de arte, fotografia cristalina e interpretações sinceras (quando um dos Jamies diz que tentou o suicídio por não conseguir devolver o amor na mesma intensiade para o outro Jamie - daí nunca se deixar penetrar durante o sexo - a psicanálise de boteco chega a convencer).

Agora, nessa altura da vida e do campeonato, fica difícil aceitar o orgasmo enquanto panacéia messiânica capaz de redimir a humanidade e iluminar o planeta. Já vi isso uma vez, em 1977, no espetáculo de teatro e dança Escuta Zé!, grande sucesso baseado no livro Escuta, Zé Ninguém, de Wilhelm Reich, em concepção da bailarina e coreógrafa Marilena Ansaldi. Enquanto, no mesmo período, havia em Nova York um celebérrimo sex club chamado Plato's Retreat, muito falado na mídia, frequentado até pelas celebridades de então e bem longe das intenções artístico-libertárias propostas em Shortbus. Talvez por datar de tempos pré-Aids e pré-11 de setembro, era apenas um playground para adultos onde sabia-se que o buraco é mais embaixo. Bem mais embaixo.



Escrito por Marioh às 14h11
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   Os números santificam

O título do post é do senhor acima: Charles Chaplin como Monsieur Verdoux (1947), serial killer de viúvas ricas. É a sua justificativa para ter cometido tantos crimes: "Guerras, conflitos... tudo é negócio. Um assassinato faz um vilão; milhões, um herói. Números santificam, meu caro!". Isso sempre me vem à mente quando me confronto com a necessidade de cifras para legitimar o que quer que seja. "700 páginas! Nossa maior edição até hoje", grita Vogue América em seu habitual número de lançamento das coleções outono-inverno. "Mais de 250 looks!", berra Harper's Bazaar, no outro canto da banca na mesma época. Quando trabalhei em um site de moda, nos tempos da bolha internet, a pergunta dos executivos (ávidos por números mas sem saber exatamente o que fazer com eles) em certo momento era "quanto tempo levamos para tratar uma foto?" (fiquei craque em inventar medidas de tempo e porcentagens, que deixavam todos satisfeitos e nunca eram checadas). E por aí vai.

Agora vejo isso acontecendo na blogsfera. Cifras e efemérides numéricas medem o sucesso, o prestígio e, parece, indicam em qual percentual de formação de opinião cabe cada blogueiro. Chego a conclusão que os números, mais do que nunca, santificam mesmo.

Digo isso também ao notar que meu post sobre Paulo Coelho foi o que mais recebeu respostas até hoje, num total de 19. Achei divertido e curioso. Nestes quatro anos blogando (mas apenas desde o final do ano passado com maior frequência) ainda não atingi as 50 mil visitas - o que considero normal, porque nunca quis mesmo ser o sucesso da parada. Devo considerar Grão Mogol um flop? Aniway, ca...ei!

Aí, aproveito para responder a alguns leitores.

Augustusz Neto, o querido Guz, obrigado pela audiência fiel e os comentários sharp que me fazem rir e pensar que, afinal, não estou sozinho. Tony Goes (to Hollywood), idem, e também passo diariamente no seu endereço para me atualizar com o mundo musical pop do qual já fui assíduo frequentador, porém hoje ando meio preguiçoso (me atualizo via VH1, porque MTV, sinceramente NÃO DÁ!). O misterioso e darling Nucool, sempre com suas enquetes pertinentes com double entendre (adooooro). Picida Ribeiro, minha fã de antanho e praticamente da família (beijok!!!). Danilo, que sempre aparece para pontuar e colocar em pauta sua opinião. Inteligente e sacado.

E aí chegamos aos anônimos. Sempre tentando roubar a cena. Às vezes procurando desancar geral (no registro mais que previsível do "você é..." 1) velho 2) pobre 3) malvado/rancoroso/invejoso, ou as três coisas), às vezes fazendo a linha cômico/débil (ZZZZZZZZZZZZZZZZ...). "Bem aventurados os caolhos, porque só vêem a metade", já disse Millôr Fernandes. Fico me perguntando porque atacar anonimamente se não faço segredo nenhum dos meus favoritos e desafetos. Já que é tão fodão, pois que venha à cena, se apresente e tenha culhão para ir até o fim da história. Well, aí já to pedindo muito, né? Mais fácil tocar a campainha do vizinho e sair correndo, como faz toda criança tonta. 

E já que estamos no domínio dos anônimos, respondo a Xunior, o miguxo, que sua nova encarnação colocou ordem na casa. Mas tinha que ser tão caretinha? (adoro a classificação de Nucool: "revistas gay sem pinto"). Esperava, pelo menos, de gente tão "pra frente", uma pegada mais criativa, bem humorada e ousada. E sobre uma publicação ser a cara de seu(s) editor(es) não preciso nem comentar, né? Mais óbvio impossível. Porém, como tudo que se faz por lá tem o peso de "ovo de Colombo", além de "sensacional", "espetacular" e "histórico" (até o fato da "revista já está na gráfica" ser saudado como um acontecimento e não parte de um processo natural de trabalho), vamos dizer: "Pôxa, que sacada!". 

Sobre as outras revistas do segmento: Aimé é mesmo um equívoco. DOM continua firme, forte e altamente profissional - mas eu não aguento outra capa com um rapaz bonito, heterossexual, que declara na entrevista/recheio "se dar muito bem com os gays". Continuo afirmando, "falta atitude".(Não tenho visto G e nunca vi a tal A Capa).  

Agora volto à minha rotina de trabalho porque to com um texto imenso para fechar ainda hoje. Afinal "a revista tem que ir pra gráfica". Não é mesmo?



Escrito por Marioh às 17h44
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   Parole, parole, parole

Há cerca de dois meses recebi um telefonema da assessoria da editora Agir perguntando se estaria interessado em receber as provas do novo romance de Paulo Coelho. Claro que estava. Afinal, em se tratando de efeméride pop, PC é nosso produto internacional mais bem acabado (até Madonna já citou um frase do autor em perfil da Vanity Fair - aquele clichê gasto do "quando você quer muito alguma coisa o universo inteiro conspira a seu favor". E seu O Alquimista já teve direitos comprados por Hollywood, passeando pelos estúdios à procura de alguém que leve o projeto avante). Pois bem, diante do meu "sim", tive que assinar uma declaração de sigilo absoluto para não deixar o conteúdo da obra vazar.

Tento ler Paulo Coelho desde que ele surgiu como escritor e se tornou um fenômeno de vendas. Mas a cada novo best-seller, não consigo ir além da página 20 - isso com muito boa vontade. Tudo tem um sabor de pastiche de livros ruins, como alguém tentando fazer igual aqueles best-sellers que lemos durante a nossa adolescência, como Sydney Sheldon (um escritor muitíssimo superior a PC - com mais elegância e estilo narrativo, além de uma carpintaria de mestre no registro de literatura altamente comercial) e Harold Robbins (o que tornava o velho Robbins irresistível eram suas personagens femininas à beira da ninfomania e suas descrições dos hábitos devassos dos muito ricos - confirmando uma velha suspeita da classe média assalariada), sem nunca conseguir chegar lá com o mesmo brilhantismo, apenas empatando no número de exemplares vendidos.

Lá fui eu novamente enfrentar PC, desta vez com O Vencedor Está Só, que o release me prometia ser um corte transversal nos bastidores onde vivem e operam os que realmente "transam o poder" (só para usar uma expressão da época em que PC era parceiro - brilhante, diga-se de passagem - de Raul Seixas) a partir do Festival de Cannes. Ou seja o mundo do cinema, das finanças e da moda retratado por quem entende do riscado. Tenho fetiche por livros (semana passada fiquei catatônico diante de uma edição de luxe de Vanity Fair - o romance, não a revista - ilustrada pelo autor, William Makepeace Thackeray, que vi na biblioteca de um hotel design no Rio) e ler provas não satisfaz em nada esse capricho. Portanto, considerei precipitadas minhas primeira impressões sobre O Vencedor. Há duas semanas recebi em casa o livro pronto, dentro de uma embalagem reluzente cuja capa traz a foto de uma arma de prata cravejada de diamantes. Pensei, "agora sim". Mas ainda não foi desta vez, seu Paulo.

O início da trama, onde conhecemos um serial killer em plena ação na Croisette de Cannes - depois de tomar o breakfast num hotel de luxo - fazendo considerações sobre a vida e a morte, é chinfrim de doer o dente. O problema com Paulo Coelho é que ele escrevel mal, PONTO. O legal de escritores pop como Jacqueline Susann (O Vale das Bonecas, A Máquina do Amor), Judith Krantz (Luxúria, Princesa Margarida), Jackie Collins (dos divertidíssimos Rockstar e Hollywood Wives), o misterioso Trevaniam (do clássico Shibumi) e os já citados Sheldon e Robbins, é a capacidade de trabalharem lugares comuns, frases feitas, ditos populares e outras obviedades com tanta habilidade que nos fazem cair em sua arapuca, como malandros safados nos passando uma boa conversa. Com Paulo Coelho sabemos de cara que a cantada é mais que manjada e não vale nem uma cerveja barata no bar da esquina. No lugar da deliciosa cafonália de seus pares estrangeiros, PC só tem a ofrecer uma breguice enfadonha. E pretensiosa - devidamente premiada com uma cadeira na Academia Brasileira de Letras (país da piada pronta, bien sur). Quando declara que, se fosse um refrigerante, seria "uma Coca-Cola", PC deixa bem evidente sua total falta de charme e sutileza. Por essas e outras, também não me animei em ler sua biografia, O Mago, de Fernando Morais.

Só consigo pensar em um outro autor tão ruim e superestimado quanto Paulo Coelho: Dan Brown, do horrendo O Código Da Vinci, cujo mérito é ser um livro adorado por quem não gosta de (não sabe?) ler livros.

Semana passada li a coluna de J.R. Guzzo, na última página de Veja, onde ele fala sobre o vocabulário empolado de nossos políticos (e sobre o orgulho com que nosso presidente declara nunca ler livros), sobre autores ruins, leitores equivocados e a máxima da Prêmio Nobel de Literatura, Doris Lessing, de que "quando se corrompe a linguagem, logo se corrompe o pensamento". Tenho pensado muito nisso enquanto escrevo minhas mal traçadas, leio a interpretação de texto enviesada de alguns leitores que acessam o Grão Mogol e as barbaridades estampadas pelos blogs da vida. Dá pano pra muito manga e vários posts. Portanto, fico por aqui.

More news, after the break!



Escrito por Marioh às 15h07
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   Salada russa

Aleksandr Solzhenitsyn (1918-2008)

Somente hoje, segunda, fiquei sabendo da morte do escritor russo Aleksandr Solzhenitsyn, célebre nos anos 70 pelo livro Arquipélago Gulag, que lhe rendeu um Prêmio Nobel e também o status de dissidente soviético - o governo, claro, não gostou nadica da obra. Gulag causou furor por trazer à tona a realidade das prisões soviéticas para "camaradas indesejáveis" (leia-se qualquer um que se opusesse ao regime ou não se enquadrasse nos mandamentos do partido), instituídas durante o stalinismo e ainda a pleno vapor 30 anos depois. Solzhenitsyn esteve lá por oito anos e por isso fez um longo trabalho de campo entrevistando velhos prisioneiros políticos. Lembro que na época, na flor da minha adolescência, tentei ler o best-seller mas me aborreci e desisti com o peso de tudo aquilo (sem contar os inúmeros nomes difíceis de ler e pior ainda de pronunciar). Fui mais feliz ao enfrentar Um Dia na Vida de Ivan Denisovich e depois Agosto 1914. Pra variar, ninguém tem muita idéia de quem foi Solzhenitsyn e fica todo mundo sem entender o porque do destaque no noticário para a morte de um "famoso quem?" (sim, tive o desprazer de ler isso).

Leon Tolstói (1828-1910)

Só então me dei conta que ando atravessando uma fase russa. Começou há cerca de dois meses com um volume de bolso da editora gaúcha L&PM (costumo me abastacer nas bancas da Av. Paulista para leituras no metrô) contendo as novelas A Felicidade Conjugal e O Diabo, respectivamente o primeiro e o último texto publicados de Leon Tolstói, o maior nome da literatura russa. Já lera Tolstói, há dez anos. Era Ana Karenina, que devorei em um inverno tenebroso vivido em Londres. Claro que fiquei de, na sequência, encarar o épico Guerra e Paz, mas a preguiça me empurrou para a versão cinematográfica (com Audrey Hepburn, Henry Fonda e Mel Ferrer dirigidos pelo grande King Vidor).

A Felicidade Conjugal, contada em primeira pessoa por um personagem feminino, é a história de um caso de amor entre uma jovem ingênua do campo e um homem mais velho. A princípio um redemoinho de emoções (a jovem sofre palpitações e sobressaltos na presença do amado), o romance segue esfuziante até um bem sucedido casamento seguido pela experiência da efervescente vida mundana em São Petresburgo até o inevitável tédio e mesmice em que mergulham todas as relações conjugais. Em O Diabo, um jovem estudante de direito tem uma aventura com uma jovem do campo e, o que deveria ser apenas uma loucura de juventude, acaba em amarga tragédia. Fiquei com vontade de explorar mais páginas do mestre russo (descobri num documentário que, no final da vida, Tolstói fundou uma religião - queria ser um homem santo - e seus ensinamentos sobre a não violência influenciaram profundamente um jovem que viria a se tornar Mahatma Gandhi).

Fiódor Dostoiévski (1821-1881)

Da mesma coleção pocket book L&PM, li Noites Brancas, de Dostoiévski, com quem também não me encontrava desde os bancos escolares e da juventude, quando li Crime e Castigo, Recordação da Casa dos Mortos (o autor, assim como Solzhenitsyn, escreveu suas memórias do cárcere) e Os Irmãos Karamazov. Noites Brancas - como os russos chamavam as noites claras de verão - me fez ver como a narrativa minuciosa de Dostoiévski - assim como a de Tolstói - evocam imagens sobre imagens que formam cenas vívidas para um leitor ainda não conhecedor da estética do cinema (um fato consumado a partir da segunda década do século XX). É a bela narrativa de um caso de amor à primeira vista - um jovem encontra na rua uma mulher que chora. Romântico e lírico temperado com um tanto de desilusão e cinismo.

   

Minha leitura no momento

Finalmente leio Them, a Memoir of Parents, de Maxime du Plessix Gray. A escritora conta a vida de sua mãe Tatiana Iacoflev e de seu padastro Alexander Liberman. Russos, eles tiveram que deixar a pátria durante a Revolução, estabeleceram-se em Paris (onde se conheceram e se apaixonaram) para logo em seguida fugir da França ocupada pelos nazistas rumo aos EUA (Liberman era judeu), onde se fixaram em Nova York e lá deixaram sua marca.

Tatiana, que foi amante e musa do poeta Mayakóvski, tornou-se ícone fashion da sociedade de Manhattan como designer de chapéus e pelo seu jeito de vestir, receber e viver. Alexander Liberman foi o poderoso diretor da editora Condé Nast por 40 anos, supervisionando títulos como VogueHouse & Garden, influenciando toda uma escola de jornalismo em revistas. Enfim, uma delícia de leitura.

Agora só falta conhecer a Rússia, a própria.

Até lá, nazdróvia!



Escrito por Marioh às 15h35
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   Dramaturgia vintage

Cadu Favero e Maria Padialha em Cordélia Brasil

Outro dia me pediram dados para um "pé biográfico" de uma colaboração que fiz. Me autodefini como "jornalista vintage", uma brincadeira recorrente entre amigos que já passaram dos 40. No último domingo tive a oportunidade de fazer um programa totalmente vintage. Fui ver a nova montagem de Cordélia Brasil, peça escrita por Antonio Bivar no antológico ano de 1968. Éramos a fotógrafa Vânia Toledo, a dramaturga Leilah Assunção, Bronie (modelo extraordinaire safra 70/80), o próprio Bivar e este que se assina. Vintage as vintage can.

Well, Bivar foi meu primeiro editor, na extinta Interview, no longínquo ano de 1978 ("Dez anos depois que escrevi Cordélia", bem lembrou ele). Vânia conheci na mesma época, era nossa fotógrafa frenética, amiga querida com quem fiz dobradinha por um bom tempo (ela vem aí com a exposição Diário de Bolsa, em agosto, na Pinacoteca de São Paulo). Leilah Assunção foi objeto de minha primeira entrevista assinada, para a mesma Interview em 1979, quando lançava a peça Vejo Um Vulto na Janela, Me Acuda Que Sou Donzela. E Bronie foi companheira de aventuras underground/rock'n'roll - da loja de discos Wop Bop ao porão do Madame Satã, passando pelo Ritz, Brahma e o apartamento do Carlini, nos anos 80. Quer dizer, juntando tudo dava pra escrever um romance geracional.

Em sua encarnação 2008, Cordélia Brasil é vivida pela atriz carioca Maria Padilha, acompanhada pelos atores Cadu Favero (o marido) e George Sauma (o amante de 16 anos). A direção é do gaúcho Gilberto Gawronski que nos informa não ter alterado uma linha sequer do texto original - ele está todo lá, com sua gíria e até palavrões de época. O papel foi criado originalmente por Norma Bengell que, segundo Bivar, era ovacionada em cena aberta e, por conta do escândalo da montagem (imagine, no ano do AI-5, a história de uma esposa que se prostitui para sustentar o marido aspirante a escritor de histórias em quadrinhos, enquanto vivem um triângulo com um menor de idade!!!!) foi até presa pelos militares. Os figurinos, deliciosamente kitsch com direito a muita estampa lisérgica Pucci, e a trilha sonora, cheia de Mutantes e Jovem Guarda, situam a montagem numa pegada retrô que aproxima o espetáculo da moçada na platéia. Detalhe: o teatro Sesc Av. Paulista tem apenas 90 lugares e fica no décimo andar de um edifício - bem ao lado do Itaú Cultural - o que dá a impressão de que vamos ver uma performance encenada no apartamento de algum amigo. Bem "lá em casa" mesmo.

Maria Padilha deita e rola no papel, na dose certa de drama, comédia e deboche rasgado (o espírito Dercy Gonçalves paira sobre alguns momentos divertidos). Cadu Favero demonstra um ótimo timing de comédia e expressão corporal, mas é o garoto George Sauma (que também está no elenco de Toma Lá Dá Cá, da Globo) quem surpreende com um jogo de cintura simplesmente encantador. Enfim, os três atores se divertem a valer em cena e carregam a platéia no embalo. "Bivar é a contracultura", me disse Leilah. E tropicalismo também, digo eu. Vá ver, é bem bacana e fica mais cinco semanas em cartaz.

Depois do espetáculo, fomos jantar no velho e bom Gigetto, na Rua Avanhandava. Reduto teatral vintage. Falamos muito do teatro que se praticava nos anos 60, da mágoa de caboclo que rolava solta, de quem ficou e quem virou areia do tempo. Bivar lembrou que, quando encenou outro texto, Gente Fina é Outra Coisa, Plinio Marcos saiu indignado do teatro Maria Della Costa e declarou na imprensa: "Enquanto a gente está brigando pelo arroz e feijão, lá vem o Bivar trazendo a sobremesa". E não é que ele, apesar da bronca, tava certo?

Ver Cordélia e jantar com velhos amigos foi tão gostoso quanto uma boa sobremesa. Recomendo.



Escrito por Marioh às 17h10
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   Mais Dercy

Triste ver como a nova geração não tem a menor idéia de quem foi Dercy Gonçalves além do expediente rápido e rasteiro da "velha que falava palavrão". Vejo isso espalhado não só pelas opiniões ouvidas aqui e ali, como também pela blogsfera (essa babel vulgar e convencida) e até no noticiário oficial (acusam Dercy de ser "antiga e preconceituosa" da mesma maneira que lamentavam Jorginho Guinle pelo fato de "nunca ter trabalhado na vida"). Visões estreitas e mesquinhas, para não dizer ignorantes. Enfim, conhecimento de causa e perspectiva histórica não fazem mal a ninguém antes de emitir qualquer opinião. Mas essas coisas, parecem, não costumam pegar bem ultimamente, quanto todo mundo acha até bacana não saber absolutamente nada porque, afinal, "não precisa". 

Lembrei também de outras pérolas by Dercy: 

"Agora todo mundo gosta de mim. Até a polícia." (em um dos aniversários de sua nona década, admirada com uma homenagem vinda da velha inimiga que a perseguiu durante mais de quatro décadas)

"Uma vez fui traída. Fui trocada por uma bailarina. É, mas não era bailarina chumbrega, não. Era bailarina clássica. Dessas que esticam as pernas e escostam a xereca no chão". (em um dos muitos espetáculos onde contava sua vida)

"Falaram que eu não gosto desse novo papa. Mentira. Eu gosto do papa, principalmente quando ele está com aquelas roupas bem enfeitadas, parecendo o Clóvis Bornay" (sobre o papa Bento XVI)

Xô, perereca!   



Escrito por Marioh às 17h51
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   Glória nacional

Dercy Gonçalves se foi no último sábado (19/07) aos 101 anos - 103 segundo a própria. É o século XX se despedindo através do passamento dos luminares que representaram o jeito de ser e pensar da época.

Para mim, Dercy é uma das primeiras lembranças de infância quando ela, já então uma senhora quase sexagenária, era estrela absoluta dos programas humorísticos da TV Excelsior (para sintonizar girava-se o seletor de canais até o número 9 - atual Rede TV). Toda quinta-feira, num programa chamado, se não me engano, Vovô Deville, entrava a Dercy em cena em algum sketch que eu não entendia bulhufas do enredo, mas ria que me acabava com a impagável cantiga A Perereca da Vizinha (anos depois, em uma entrevista no Roda Viva, Dercy contou que a música foi um improviso, feito num dia depois de enfrentar uma longa sessão de psicanálise - ela era adepta da prática). Meu pai não gostava muito que minha irmã e eu assistíssemos o programa da Dercy. "Essa velha desbocada é um atraso", reclamava. Mas não proibia. Então a gente se divertia. Desde então virei fã. E cada vez mais fui vendo que a atriz era puro reflexo do Brasil povão, popularesco, debochado e mambembe ("Sou mambembeira", declarava Dercy, com muito orgulho).

Fã declarado da atriz, Paulo Francis, em um de seus textos para a Folha de S. Paulo, lembrou a estréia de Dercy numa peça legítima nos anos 50 (até aquele momento, era marginalizada por seus pares devido ao estilo francamente chanchadeiro e performático - era uma show woman, antes de qualquer coisa). O teatro era em São Paulo e, na peça, Dercy fazia a mãe pobre que trabalha como faxineira num bordel para pagar os estudos do filho num colégio interno de primeira linha. Segundo Francis, toda a inteligentsia da época estava presente - além da classe teatral (era o grande momento do TBC), jornalistas e intelectuais - para ver Dercy tropeçar nas falas e se esborrachar no palco. Começa o espetáculo e a tensão só faz aumentar. Dercy se segurando para obedecer o texto e a platéia esperando pela inevitável catástrofe. A certa altura, quando a personagem recebe a visita de alguém lhe trazendo notícias do filho, ela pergunta se ele é bom aluno. O interlocutor responde que o menino é ótimo aluno, vai muito bem no inglês, inclusive, sempre cumprimentando a todos com um "good morning", um "how do you do?". Foi demais para Dercy. Ela olhou em volta, respirou fundo, fez cara de menina sapeca e sapecou: "Cu de quem?". O teatro veio abaixo e ela terminou a noite vitoriosa.

Era essa a faísca de gênio que fazia Dercy ser tão amada pelo povão e admirada pela elite. Ela era autêntica. Ponto. Vi Dercy em cena várias vezes e o script era sempre o mesmo, contando suas aventuras e desventuras desde que fugiu de casa, em Madalena, em 1924, até se tornar uma artista de sucesso. Mas o jeito como ela contava tudo era a sua pedra de toque - subindo ou descendo no escracho e na quantidade de palavrões de acordo com a pulsação da platéia. Mantinha todo mundo na palma da mão. Quantos artistas conseguiram isso?

Estive frente a frente com o mito uma única vez, há dez anos, num evento de lançamento de alguma coleção de moda num show room armado no hotel Sheraton, no Rio. Conversamos, rimos muito, claro, e ela ficou encantada com o ator Carlos Casagrande. "Puta que o pariu, que homem bonito. Mas é viado, não?", comentou. Apesar de dizer que não se interessava por sexo e não ter tido grandes casos de amor, Dercy adorava rapazes bonitos.

A seguir alguns hi-lites de Dercy Gonçalves que cito de memória (pode não ter sido exatamente assim, mas o estilo Dercy está intacto, garanto):

"Tive uma tuberculose e três maridos. Me curei dos quatro" (entrevista para revista Cláudia, nos anos 70)

"Fiz meu túmulo lá em Madalena. Uma pirâmide. Só eu e o faraó. Te digo mais, vou virar milagrosa, viu?" (para Marília Gabriela, em entrevista no SBT)

"É verdade, era uma LACUNA!" (no filme Dona Violante Miranda, de 1960, respondendo à pergunta "quem preencherá esta lacuna?", feita por um frequentador de bordel, no discurso de despedida de uma das "meninas" que vai se casar e deixar a vida)

"Sim, conheci o Walter Mercado, em Miami. Estava num restaurante e chegou aquela pessoa loira, com uma capa de seda, cheia de jóias, toda perfumada. Pensei que era a Hebe!" (no programa Amaury Junior)

"Hebe, já pensou nós duas, fanchas?" (no programa da Hebe, em uma das muitas discussões sobre homossexualismo)

"Minha filha, Dercimar, é muito católica. Ela vive querendo me levar na igreja. Diz 'vamos lá, mamãe, você acende uma vela'. Eu digo 'pra que? Daqui a pouco eu entrego pessoalmente'." (em alguma entrevista recente)

"É travesti?" (como a rainha mãe de Que Rei Sou Eu?, quando apresentada para a personagem de Mila Moreira)

Hoje pela manhã, em um telejornal da Globo, a filha de Dercy justificou porque vai fazer uma grande festa amanhã, em Madalena, durante o funeral da mãe. "Quando eu era criança, ela encostou a testa na minha testa, olhou nos meus olhos e disse: 'Nós vamos ser felizes na porrada!'."

Merci, Dercy!



Escrito por Marioh às 16h29
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   There's no place like home

Não tenho o hábito de comentar aqui acontecimentos cotidianos que dominam o noticiário e a blogsfera - alguns de maneira quase histérica, como o show da Madonna (ZZZZZZZZZZZZZZZ). Lembro de uma célebre passagem de Regina Guerreiro, em seus tempos de Vogue, respondendo a um novo assistente que avisava sobre uma sessão de fotos marcada para acontecer em pleno Carnaval: "Nós da revista Vogue estamos acima dessas manifestações populares" (mais la Guerreiro, impossível).

Por essas e outras, não falei nada sobre a tão comentada e polêmica (tenho medo desse termo, quase esvaziado de tanto que é usado equivocadamente e em vão) LEI SECA. E outra, não dirijo e nunca tive carro (uso e abuso do transporte público, enquanto ser urbanóide que sou). Também atravesso fase totalmente alcohol free (ordens médicas!!!!). Portanto, essa lei não altera em nada meu day by day.

Mas daí, li um texto no UOL e não resisti. Trata-se da reflexão do jornalista respónsável pela coluna Destaque GLS (hein?). Achei curioso o conteúdo que destila uma não disfarçada tentativa de revanche de quem - parece - nunca foi convidado para aquelas festas suuuuper bacanas lá dos anos 90 e não perdoou ninguém pela falseta. Seria cômico se não fosse triste. (leia aqui)

É preciso apatetar o mundo para os patetas, já dizia o velho homem de imprensa.

Enquanto isso...

 

CRÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉU!!!!



Escrito por Marioh às 17h57
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   Piada mais que pronta

Não resisti publicar o release que recebemos hoje na redação. Claro que foi o divertimento do dia (mantive endereços e contatos. Caso interesse, se joga):

"Primeiro Arraiá do Prazer

Acontece no dia 24 de julho o evento que marca o diferencial da tradicional festa junina. Para tal feito a Exxclusive Productions, o programa Prive 89 FM e a DKT Prudence se uniram para conceber a primeira Festa Caipira Erótica do país. O Arraiá do Prazer será realizado na Secrett a partir das 21 horas, localizada na rua: Nova Cidade, 181 -
Vila Olímpia - São Paulo.
Atores e atrizes pornôs estarão presentes para abrilhantar esta folia típica que tem como objetivo elevar a libido dos presentes, tendo como foco levar erotismo e sensualidade a esta festividade trazida pelos portugueses na época colonial e acabou caindo no gosto dos brasileiros, por isso unimos o útil ao agradável no dia 24, já que o prazer é o forte das empresas supracitadas.
Contamos com barracas temáticas, brincadeiras sensuais, comidas típicas, shows, blits promocionais, distribuição de brindes e a presença de show ao vivo.
O evento conta com personalidades da tv, cinema e teatro tais como: A galera do Hermes & Renato, Angélica Castro, a ex-mercenária do funk Dani Lopes, o ex-BBB Rogério Dragone, Marcelo Mathias ex-Casa dos Artistas, o ator Fábio de Castro, Marcia Imperator, entre outros.
Presença de personalidades pornô Pamela Butt, Bella, Anita Ferrari, Mônica Mattos - a vencedora do Oscar Pornô Mundial, Victor Gaúcho, Carlão Bazuca dentre outros.
Como é de praxe não faltará brincadeiras típicas de festa junina como: Barraca do beijo, pescaria, argola, soft strip e as barraquinhas de comidas típicas.
E o mais esperado; a quadrilha mais sensual de todo o país com ilustres convidados. Em suma, trata-se de um evento que entrará para o calendário paulistano.
Por gentileza, caso desejam em cobrir o evento, favor responder e-mail com a quantidade de credenciais de imprensa necessárias.
Abraços
Rsvp:
_info@exxclusive.net_ <mailto:info@exxclusive.net>
Convites limitados a venda, garanta já o seu:
SECRETT - (11)3842-9669 / 8368-9809
Mahte Montero
Assessoria de Comunicação Exxclusive
Tel: (11) 5531 5610 - 7542 1681"
 



Escrito por Marioh às 20h42
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   Gêmeos, mórbida semelhança

Eu ia escrever um post sobre a revista Aimé, que este mês traz os gêmeos Flávio e Gustavo (acima) na capa. Porém, diante da propriedade com que o assunto é tratado hoje no Te Dou Um Dado?, fiquei speechless.

Pra se divertir clique aqui

'Nuff said.   



Escrito por Marioh às 14h34
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   Referências chez Chanel

Vejo on line a coleção haute couture outono-inverno 2008 Chanel (look acima). Em seguida vejo a campanha da marca estampada nas revistas glossy internacionais do mês. Tanto o penteado Chanel quanto os casaquetos e a atitude (principalmente na campanha publicitária estrelada por Claudia Schiffer), nos levam até Vivendo a Vida (Vivre Sa Vie: Film en Douze Tableaux, 1962), de Jean Luc Godard. No filme, acompanhamos o cotidiano de Nana Freinkenheim (Ana Karina, então mulher do diretor) e sua trajetória na vida fácil - sem dramas ou maiores transtornos, com os olhos de Godard nos tranformando em voyeurs, nunca cúmplices, de episódios da rotina dessa prostituta parisiense. Sobre a coleção Chanel, a jornalista Cathy Horyn, disse que é o lado germânico do diretor criativo da marca, Karl Lagerfeld, em ação - sombrio e sem concessões nostálgicas ou sentimentais.

Ana Karina em Vivre Sa Vie, 1962 

No bloco final da apresentação temos a imagem acima. Clicando um feature do site style.com sobre a top model sessentinha Veruschka (née Vera Lehndorff), deparo com a própria exibindo uma "tiara moderna" de Giorgio Sant'Angelo, em 1968. Take a look:

Como vemos, tudo se transforma... 



Escrito por Marioh às 16h26
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   Alfaiataria sutil

Achei no Youtube os curtas de apresentação da coleção masculina YSL outono-inverno 2009 by Stefano Pilati, da qual falei dois posts abaixo.

Enjoy!



Escrito por Marioh às 20h19
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   No meu playlist de inverno

Hoje vi este vídeoclipe quando acordei - exatamente naquele programa da VH1, Vídeos Para Levantar - e me senti em algum lugar dos anos 60 (late 60's). Já tinha ouvido a Duffy e, na primeira vez, pensei que era a Carmel, que a gente ouvia e gostava nos anos 80. Aí, quando vi a loirinha, lembrei da Nancy Sinatra. Divertido como essas referências pop retrô foram aproveitadas na Amy Winehouse (Ronetes) e agora com Duffy.

Go, girls!

 



Escrito por Marioh às 20h22
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   Role model

Daí, a Isabeli Fontana (acima recebendo uma Amy rápida) tava lá no sofá da Hebe e disse que não gostaria de ter um filho gay.

Daí, as "bee" engajadas se mobilizaram pra jogar pedra na moça e exigir respeito.

Daí, Diana Vreeland já dizia, lá longe, "Modelos. São divinas ou as criaturas mais aborrecidas do planeta".

Daí, que não se entrevista cabides.

Daí, que debates indigentes não acabam nunca.

Preguiça...



Escrito por Marioh às 21h27
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   Mais pijaminhas e mais da moda dos rapazes

Bottega Veneta: pijamarama

A temporada masculina primvera-verão 2009 terminou em Paris. Então dá pra fazer um balanço do que pintou por lá. Nada tanto assim, já que não estava lá para uma cobertura in loco - direto do front row. Mas minhas humildes impressões de iniciado no assunto. Entonces, é o seguinte...

Na Botega Venetta (marca que eu lembro, lá de longe, era coisa de ladies who lunch) o designer Tomas Maier fez pijamas inspirados na silhueta anos 40, de bambambãs da época como Bogart e Mitchum (exemplo na foto acima). É usável e pra lá de confortável. Gosto da mistura blazer com pijama (a beauté privilegiou o look "acabei de acordar"). Tá na minha wishlist.

 

Comme des Garçons: black is best

Nos domínios nipônicos de Rei Kawakubo, saias masculinas são um must - a estilista japones adora. Teve o saiote dos soldados gregos, o kilt colegial e até a versão em babadinhos como no look acima. Rei disse ter acompanhado uma inspiração de trajes clericais. "Padres selvagens", definiu alguém da primeira fila. Ainda não sei quem é o homem consumidor de Comme des Garçons e Cathy Horyn, sempre muito invocada, já perguntou qual a importância da marca hoje em dia. Eu diria "conceito, darling, conceito". Bastante ousadia intelectual envolta em preto, muito preto.  

 

Ann Demeulemeester: pai de santo alemão

Fã confessa da roqueira Patti Smith, a belga Ann Demeulemeester (pronuncia-se "Demelemuster") dessa vez buscou inspiração no autor favorito de sua musa, o alemão Herman Hesse. Vestiu os modelos jovens na primeira parte do desfile com pijamas negros. Enquanto os modelos mais velhos (beeeem mais velhos), do último bloco, apareceram numa gama de branco, bege e off white. Alguma coisa entre jovens existencialistas e hippies veteranos - acho eu, porque dona Demeulemeester adora tribos inseridas no contexto. O traje pai de santo (acima), parece uma delícia de ser vestido.

 

Jean Paul Gaultier: golpe de mestre

Sim, o ex-enfant terrible chegou na meia idade e agora prova por A + B que sabe - e pode - tudo sobre porporção, silhueta e alfaitaria. Não é uma coleção provocadora ou irreverente. O mestre também visitou os anos 40, mais precisamente um filme western da época. Na imagem acima, a calça ampla constrasta e complementa a t-shirt superposta à segunda pele de estampado colorido, peça chave do repertório do estilista. Houve um bloco de xadrezes, num colorido com a mesma iluminação flamejante de Duelo ao Sol.

Hermès: o máximo do minimal. Efortless!

Aqui quem desenha é uma mulher, Veronique Nichanian (Gaultier desenha a linha feminina da casa), e seu verão sinaliza FÉRIAS. Mas que férias minimalistas. E chic. À noite, este homem se veste com os tricôs sofisticados e fluídos, linhos e algodões confortáveis e luxuosos. Atenção para a gama de cinzas. "Garbo e elegância" são de rigueur. Mas sem esforço. 

 

Miharayasuhiro: desgaste hi-tech 

Dificílimo de pronunciar, porém muito fácil de gostar. Este jovem designer nipônico foi até o artista plástico alemão Joseph Beuys em busca de inspiração. No visual de Beuys, não em sua obra. Ele era conhecido, sobretudo, por vestir-se com roupas gastas, surradas pelo tempo, desbotadas por produtos químicos, manchadas de tinta e umidade. Mihara também fez isso, mas por obra e graça da tecnologia. Uma coleção bem interessante com doses equilibradas de classicismo e ousadia (degradê ácido e bordados para serem confundidos com estampas). Dá um look no cós jeans da calça de alafaiataria da foto acima. Olho nesse moço. 

Raf Simons: o antipijama

Claro que Simons, dono de um estilo individual, não iria na mesma direção de todos. Sua intenção foi fazer um manifesto à alfaiataria, esquartejando o smoking. Pegou o traje e o reduziu ao mínimo. Nada de mangas ou calças longas. Suas bermudas lembram leggings de academia. (Aliás, há muitas cropped pants e bermudas nas coleções em geral. Mas elas parecem forçadas, mais num registro calças curtas - o look "pinto calçudo". Decididamente europeus não são desse ramo) Especialistas chamam a atenção para o refinado exercício de design de Simons. A inspiração vem do trabalho do artista nova-iorquino Christopher Wool e do compositor canedense Leonard Cohen. Mais cult impossível. 

 

Paul Smith: picnic cósmico  

Sir Paul Smith batizou seu verão de picnic cósmico. E explicou porque: aparência clássica com ideais psicodélicos. Segundo ele, uma citação dos dias em que as pessoas se vestiam de maneira comportada mas suas mentes já estavam afetadas pelos efeitos do LSD. Por essas e outras gosto de ver mr. Smith como uma alternativa boêmia ao estilo Giorgio Armani de ser. Mais um exercício de styling do que exatamente uma coleção. Boa sugestão para quem tem roupas caretas mas não quer ser visto como tal.

Viktor & Rolf: academicismo kitsch

O duo holandês que fez o caminho inverso na moda feminina (começaram na couture e depois foram para o prêt-à-Porter) é famoso pela sua moda artsy, seus defiles happenings e atualmente por uma exposição de instalações em Londres. Entretando o verão masculino da marca baseia-se num tema banalmente pop, em se tratando da dupla, é claro: Havaí nos anos 50. "Um momento onde as pessoas foram realmente elegantes", segundo eles. Traduziram isso em peças básicas ornamentadas com detalhes luxuosos. Seja um bordado em Swarovski, seja os materiais luxuosos do nerd look acima.

Yohji Yamamoto: japonismo light

O senhor absoluto da moda intelectualizada vem nessa temporada com pensamentos sombrios ("O mundo está cada vez pior"),porém ansiando por dias ensolaraddos ("Sejamos felizes!"). Por isso, o austero exercício sartorial chega calmo e confortável. Sim, a assimetria e o preto continuam lá, e as calças seguem o mantra do pijama. A sur´presa foram duas camisas coloridas de renda: uma azul (acima) e uma amarela. Misturando modelos jovens e senhores não modelos da sua faixa etária (sixtysomething), Yohji exibiu uma coleção sobre a passagem do tempo, trduzido em fomas, tamanhos e materiais que evocam o passado e recordações, porém sem nostalgia ou saudosismo. Envelhecer não é bom, parece dizer o designer, mas é o único caminho. Só nos resta aproveitar a existência da melhor maneira possível. 

 

Yohji Yamamoto, o próprio: Bravo!



Escrito por Marioh às 17h45
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