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    Grão Mogol by Marioh


    S'Wonderful!

    Não lembro exatamente quando vi Claudia Wonder pela primeira vez.  Com certeza foi na noite e pode ter sido tanto no Medieval, no HS ou no Val Improviso - os limites da cena de então, completado pelo Nostro Mondo, do qual nunca fui habitué. Afinal, na virada das décadas de 70/80 la Wonder já se sobressaía no circuito gay  (não, o GLBTH ainda não havia sido inventado) entre os travestis/transformistas que faziam shows de humor e dublagem. Havia a hilariante Makeba, que podemos considerar "avó" de Silvety Montilla - porém num registro mais refinado, menos agressivo. O caricato Zuraio, especialista em imitar as cantoras brasileiras desde as rainhas do rádio até as musas da MPB (fazia tanto Dalva de Oliveira, que ele amava, como Elis Regina, que odiava). Zuraio aliás, chegou a ser contratado para a linha de humorísticos do SBT, porém morreu pouco tempo depois e não teve chance de ser conhecido do grande público. E havia também Miss Biá, que prossegue firme e forte. Wonder, porém, como diria Katylene, era outra katchygurya.

    Na flor da juventude e com tudo em cima, tinha trocado a identidade do nascimento (Marco Antonio Abrão) por uma persona feminina atraente e exuberante. Por isso, minhas memórias da Wonder nessa época são de alguém muito alegre, simpática, animada e batendo papo com todo mundo. Sempre foi performática e como eu trabalhava para a Interview, a publicação mais descolada da época, acabei indo conversar com ela certo começo de noite em um lugar recém-aberto que ela mesma escolheu, num ponto meio escondido do Bixiga, e de nome super sugestivo: Madame Satã. Quando cheguei, fiquei meio sem entender se aquilo era um restaurante caído, um barzinho brega de música ao vivo ou uma resposta ainda mais alternativa para modernésimo Carbono 14 (meses depois descobriria que não era nada disso, mas era tudo isso também e muito mais, numa efeméride espetacular como São Paulo jamais havia visto e nunca mais viu).

    La Wonder estava vestida da maneira mais simples - top de alça, calça jeans, cabeleira afro - e com aquele sorrisão que era marca registrada. Conversamos, conversamos, conversamos e conversamos ainda mais um pouco bebendo muita cerveja que nos era servida por um rapaz bonitão e calado (Willians Jorge, irmão e sócio do Wilson, os donos da casa). O santo bateu e, mesmo Interview nunca tendo publicado a entrevista (foi considerada alternativa demais - as fotos, da estrela envelopada num bandage dress feito de sacos plásticos, eram de Vania Toledo) a gente ficou amigo. Quando lancei um volume da coleção Encanto Radical, da Editora Brasiliense, sobre Mae West, lá estava la Wonder na noite de autógrafos, de legging e suéter justo. Apresentei-a à minha mãe e ela ficou meio tímida, mas as duas começaram a bater papo. Mais tarde minha mãe comentou: "Que moça fina, educada e perfumada!".

    Pois no meio dos anos 80 a moça fina, educada e perfumada resolveu assumir PERFORMÁTICA com todas as letras e fez apresentações memoráveis no Satã cantando Venha Pra Barra Pesada, sua versão para Take a Walk on the Wild Side, de Lou Reed, mergulhando numa banheira cheia de groselha enrolada na bandeira do Brasil e exibindo a nudez homem/mulher.  Voz pequena, de basso profondo, mas uma intensidade cênica eletrizante. Depois foi para o teatro, onde fez várias peças e conseguiu o respeito de luminares como Zé Celso Martinez Correa, e até quando o cinema paulistano da Boca Lixo se rendeu ao pornô, ela fez filmes de sexo explícito. Sem cair do salto ou desfiar a meia, me disse: "Você sabe o quanto custa manter a pose, não é?".

    Quando os 80 viraram 90 e o rock indie deu lugar ao pop eletrônico la Wonder foi viver na Europa e ao voltar trouxe na bagagem o espírito ativista. Nunca mais parou de batalhar pelas causas que acreditava, principalmente o apoio aos trans e a luta contra a homofobia (de quebra, era síndica do prédio onde morava). Foi quando paramos de nos encontrar na noite e começamos a nos ver à luz do dia: no metrô, no ônibus, no supermercado, na Livraria Cultura etc. e era sempre alto astral. Nunca vi la Wonder triste, reclamando da vida, chochando alguém - e também nunca vi ninguém chochando ela. Uma vez eu tava de coração partido, triste, sozinho numa mesa do Ritz e ela veio falar comigo. Fiz minha cena de novela mexicana, ela me deu um beijo, passou a mão na minha cabeça e disse, com voz firme: "Você tem mais é que se apaixonar pelo seu trabalho". 

    Ultimamente nos falávamos via Facebook e na semana passada mandei uma mensagem pedindo um depoimento para uma matéria que estou escrevendo. Não houve resposta. Achei estranho. Mas não pensei em nada grave. Na manhã de sexta recebi a notícia de sua morte pelo mesmo FB. Fiquei muito triste e lembrei sobretudo do pito que ela me passou no Ritz e daquele sorrisão poderoso. 

    À noite, em seu velório na Secretaria da Justiça e da Defesa, no Pátio do Colégio - local mais apropriado impossível - foi emocionante ver amigos e admiradores aplaudindo o belo e sincero documentário de Dácio Pinheiro, Meu Amigo Claudia. Mas a cena que gravei melhor foi de um amigo de la Wonder, bem humilde, se debruçando sobre o caixão: "Tchau, Claudia. Vai com Deus. Cuida da gente, bi".  

    Vai cuidar, tenho certeza.  

      



    Escrito por Marioh às 16h09
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