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Da aurora da minha vida

Sabadão na Yabba*: (da esquerda para a direita) Eu, Marquinhos MS, Dinha Ferrero e Lucia Posas em algum momento de 1989 Aí, hoje, o site deepbeep colocou no ar um set do DJ Marquinhos MS. Já escrevi sobre ele aqui no post inaugural do Grão Mogol (2004). Mas hoje a coisa é homenagem mesmo. No próximo dia 7 de abril serão 16 anos que ele se foi e alguém recuperou uma fita cassete de uma noite que ele fez quando era residente do Allure. Lisias Paiva, o pai da ideia, começou a falar sobre a preparação do post há algum tempo e eu acabei escrevendo um texto derramado sobre o Marquinhos, a cena de então e um pouco da nossa história (não há como não se derramar quando falamos de um amor). Aí, hoje deixei um post lá no site. Por isso resolvi republicar a seguir os dois textos. Smooth operator Well, Marquinhos MS… sou suspeitíssimo pra falar dele. Conheci em 1984. Numa noite de mau humor épico e ele foi chegando, conversando, e me ganhou em dois minutos. Me convidou para ir no Madame Satã, club que começava a chamar atenção mas ainda não era “O” lugar da noite paulistana que iria se tornar cerca três meses depois. Claro que estavam ele e Magal, brothers in “agulha de vitrola” que se revezavam nas picapes da casa colocando o povo pra dançar de uma maneira que até então não se vira por aqui. (Cabe um parêntese: a figura do DJ praticamente não existia na noite. Havia o responsável pelo som e só. Aliás, “Disc Jockey” era termo usado no rádio para apresentadores que faziam a própria seleção musical de seus programas. Na cena internacional, os profissional encarregado de tocar discos, era conhecido como “discaire”, o discotecário). Nosso primeiro encontro aconteceu no apartamento do Carlini, na Rua Dona Veridiana – Baixo Higienópolis, de onde saia grande parte das novidades que os DJs de então – o termo começava a pegar – tocavam na noite. José Roberto Carlini (1949-1994) era comissário de bordo da Varig e o som da noite paulistana deve muita coisa a ele, foi a primeira pessoa que vi usar piercing no mamilo e possuir um Walkman, em 1979, o ano em que caí na noite – onde permaneci até 2001, quando o barato ficou louco demais, sintético demais e divertido de menos pro meu gosto. Com Marquinhos (o MS foi incorporado mais tarde e até hoje eu não sei o porquê) foram dez anos de muita cumplicidade, companheirismo, diversão, descobertas, aprendizados e, sobretudo, som na caixa. Sim, ele não era das dez pessoas mais fáceis da face da Terra – nem eu – então houve bastante faísca, chuvas e trovoadas, mas a gente conseguiu administrar (o caldeirão da bruxa escorpião-peixes). Ainda tenho muitas fitas cassete gravadas pelo Marquinhos (sets que ele tocou ou feitas durante encontros que varavam dias e noites), mas não sei bem por onde andam. Sem dúvida, dentro de alguma caixa preta da minha vida. Era expert em sets hipnóticos com passagens imperceptíveis. Uma música emendava na outra. Sonoridades sobrepostas, trechos dissonantes insinuando-se no meio de batidas conhecidas, cortes abruptos para controlar a velocidade, equilibrar o colorido ou simplesmente to set the perfect mood. Confesso não tirar de letra, hoje, ouvir o que ouvia com ele – seja o que ele me apresentou ou eu pra ele. Lembro o dia que apareceu em casa com o single de Unfinished Simpathy, do Massive Attack (uau!!!). Na época do Satã, Magal e Marquinhos muitas vezes passavam em casa antes de ir pro trabalho e o som da noite começava na minha sala (há testemunhas. Certo, Magal?). Pensando bem, nunca digeri totalmente sua morte – em 1994 – e ainda não é nada simples lembrar dele, falar sobre ele… Enfim, não foi uma coisa à toa. Marquinhos não teve tempo de fazer tudo que era capaz ou realmente mostrar a que veio. Muito do que ele falava nos anos 80 e 90, só veio acontecer nos anos 2000. Estava à frente de nós todos e alguns poucos entenderam. Meu amigo, meu amor, meu DJ favorito ever. ‘Nuff said!

photo by Lucia Posas MARIO MENDES disse em 29 de março de 2010: E lá vamos nós. Marquinhos MS (Antonio Marco de Souza, como estava no RG) nasceu em 11 de novembro de 1963, em São Bernardo. Morreu aos 30 anos, em abril de 1994, uma semana depois do Ayrton Senna. Sua última residência como DJ foi no Cha-Cha-Cha, na Tabapuã, Itaim Bibi. Entre os locais onde ele e Magal tocaram estava o Anny 44, na Bela Cintra, onde hoje é a Lellis Trattoria. Era um lugarzinho underground bem no meio dos Jardins, teve vida breve, mas era muito divertido. Lembro ter dançado Primitive Painters, do Felt, naquela pista (right, Flavia, Waltinho???). Que mais? Ah, Marquinhos também fazia uma consultoria informal para a Rádio Eldorado (sim, éramos todos economica e marketeiramente ingênuos), colocando na programação as coisas que ele tocava na noite e não se ouvia em outro lugar. É mito aquela história de que nos 80, tocava The Smiths e The The no rádio. Não tocava. E se tocou depois, Marquinhos, Magal, Carlini, Pardal e até eu, tivemos alguma coisa a ver com isso. Outra coisa, Marquinhos fazia questão que o sound system de onde quer que ele tocasse fosse perfeito, flawless. Sempre dizia que não adiantava nada fazer um set bacana se a aparelhagem não correspondesse. Tinha que ter grave, agudo, reverberância; acreditva e buscava uma experiência sensorial. Ninguém entendia. Achavam que era chilique de prima donna. Ele chegava na minha casa, ligava meu som e me dava uma bronca, dizia que eu tava ouvindo tudo distorcido. Seu ouvido era absurdo (odeio esse termo, mas vá lá... era absurdo mesmo). Marquinhos tinha alma de artista e isso fazia toda a diferença. Só mais uma coisa: Marquinhos MS foi vítima da Aids, que ceifou tantos talentos jovens e promissores. E também nos levou Carlini, Eloy W e Paulo Santana, só pra citar alguns e ficar na cena noturna paulistana. Acho importante registrar isso porque hoje se age como se a doença não mais existisse. Não é bem assim. No mais, vou agora ouvir o set do meu querido Marcolino Panda, como eu o chamava. Faltou falar que os sets do Marquinhos eram muito sexy. Quer ouvir do que se trata? Vai lá * Yabba-Dabba-Doo era a loja de discos que meus amigos Jorge Morabito e José Luiz da Silva tinham na rua Yayá, no Itaim Bibi, onde a gente ia todo sábado pra encontrar a turma e ouvir música bacana. Dinha hoje vive em Salvador; Lucia, em Londres.
Escrito por Marioh às 16h47
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