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Vale a pena ver de novo

Revejo pelo TCM, dentro do ciclo L'Amour Fou, Morte em Veneza (Morte a Venezia, 1971), de Luchino Visconti. Um daqueles clássicos que sempre permitem releituras e novas observações. Devo dizer que não é o meu favorito da Trilogia Alemã do cineasta italiano, mas é sem dúvida o mais visualmente deslumbrante (prefiro Ludwig, a Paixão de Um Rei, de 1972. E acho Os Deuses Malditos, de 1969, estranho e arrastado). Em Morte em Veneza há contribuições magistrais do diretor de fotografia Pasqualino De Santis, do editor Ruggero Mastroianni (sim, ele era irmão do Marcelo), do diretor de arte Ferdinando Scarfiotti e, sobretudo, do figurinista Piero Tosi (acreditamos que os personagens estão realmente em 1912, e não simplesmeste com trajes da época como em, por exemplo, Titanic). A direção é superlativa e cada sequência tem seu temperamento próprio. Porém, no afã de capturar por completo o espírito literário de Thomas Mann, autor do romance no qual o filme se baseia, Visconti - também autor do roteiro - inclui o personagem Alfred (Mark Burns) que em flash back discute com o compositor Gustav von Aschenbach (Dirk Bogarde, maquiado para se parecer com Mann) sobre a vida e a arte (lembrando de modo corriqueiro o embate Setembrini X Naphta, os intelectuais duelistas de outro clássico do autor, A Montanha Mágica). O expediente faz uma barriga na narrativa interrompendo a fluidez da longa agonia de Ascenbach em sua paixão platônica pelo jovem adolescente polonês Tadzio (Björn Andresen, na foto acima), enquanto tenta superar o stress em férias numa Veneza ameaçada pela epidemia de cólera. Tudo embalado pela daramaticidade excruciante das Sinfonias Números 3 e 5 de Gustav Mahler, em quem o Aschenbach do romance foi baseado. Silvana Mangano como a mãe atristocrática de Tadzio e Marisa Berenson, como a esposa de Aschenbach, são luxuosos adereços de cena (etéreas e inebriantes visões de damas antigas) e temos um longo traveling na praia do Lido, com uma tocante ária cantada por uma mulher do grupo dos russos (assim como em A Montanha Mágica a geopolítica européia era reproduzida nas mesas do refeitório da clínica nos Alpes, Visconti aqui faz o mesmo com as cabines da praia). São momentos de gênio que fazem da experiência cinemtográfica grande arte. Altamente recomendado.
No fim de semana mergulhei na grande orgia romana pagã que é Satyricon de Fellini (1969). Está na programação deste mês do Telecine Cult. E il maestro nunca esteve tão atrevido e exuberante. Pauline Kael, a suprema crítica de cinema americana, implicava com Fellini e sustentava que seu Satyricon é uma coleção de fantasias obscenas de um garoto de colégio católico. Concordo, mas não acho que isso deponha contra o filme. Fellini sem os tipos bizarros, sem os aleijões que se exibem para a platéia, sem as safadezas vistas de relance, não é Fellini. Baseado no romance picaresco atribuído a Petrônio, contemporâneo do imperador romano Nero, Satyricon tem uma narrativa não linear - apenas trechos do manuscrito chegaram até nós e ainda hoje se discute que tamanho teria a obra completa. São as aventuras e desventuras de Encolpio (Martin Potter) às voltas com seu amigo espertalhão Ascilto (Hiram Keller) e o amante adolescente Gitão (Max Born). Nessas andanças, passa por um teatro mambembe (que lembra muito o espetáculo do teatro de revista que o diretor coloca em seu filme seguinte, Roma) e vai parar no banquete/orgia do novo rico Trimalchão (Mario Romagnoli), pretexto para Fellini exercitar fantasmagorias debochadas e lascivas. A cenografia e os figurinos de Danilo Donati enchem os olhos e nos assombram por muito tempo depois de termos visto o filme. Capucine (na foto acima com Hiran Keller) empresta seu rosto de esfinge para a personagem Trifena, enquanto a turca Magali Nöel faz uma dança lúbrica e jogos lésbicos com outra convidada do bacanal. Donyale Luna, top model negra dos anos 60, faz Enotea, a mulher com quem Encolpio fica impotente. E Hilette Adolphe é a escrava do ménage à trois com Encolpio e Ascilto, em uma mansão deserta cujos proprietários acabam de se suicidar. Giuseppe Rotunno fotografou e Ruggero Mastroianni encadeou as imagens num efeito hipnotizante de afresco (muita gente embarca nessa trip e pega no sono). A trilha sonora tem colaboração de Nino Rota, o velho comparsa de Fellini, mas há outras sonoridades e canções igualmente hipnóticas que lembram o ritmo das tribos do deserto norte africano, num efeito moderníssimo. Satyricon merece ser revisto pelos mais velhos e descoberto pelos jovens.
Escrito por Marioh às 18h00
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