| |
Só na viração

Largo Paissandu, SP, quando a população não precisava "se virar" para ir ao centro Hoje tem mais uma Virada Cultural em São Paulo. OK, é uma iniciativa de sucesso e traz o povo normalmente temeroso dos perigos urbanos para o centro da cidade. Agora, se o cidadão comum precisa de incentivo e autorização para trafegar em certo trecho - na verdade o coração - de sua própria metrópole, algo vai muito mal. Não seria o caso de haver mais de uma edição do evento? Também não seria o caso de haver uma política realmente eficaz de ocupação de um espaço que é nosso e foi completamente abandonado e esquecido por todos? Entenda bem, nada contra a Virada, mas é tão qualquer nota ver as pessoas se deslocando para as várias atrações do programa - e mais tarde comentando - como se tivesse tido a chance de participar de um desses documentários sobre a vida animal. Acho muito cafona. Fica todo mundo o tempo todo fechado dentro de shopping ou, no máximo, dando uma volta na Oscar Freire no fim de semana (certa vez ouvi de um rapaz bem jovem: "Ah, você acha que eu, do povão, posso andar pela Oscar Freire?"). Acho triste. Lembro de criança, o footing de fim de semana pelas ruas do centro. Ir aos cines Metro, Ipiranga e Paissandu (os três mais elegantes da época), comer na Salada Paulista (na Av. Ipiranga) e no Gato Que Ri (Largo do Arouche), doces na Dulca (Galeria Olido) ou Cristallo (Vieira de Carvalho), o bauru do Ponto Chic (Largo Paissandu). Havia os Concertos Matinais aos domingos no Teatro Municipal e a gente ficava impressionado com a imponência do Edifício Martinelli (Av. São João), naquele tempo em franca decadência, rumo ao favelão que se tornou mais tarde onde nem a polícia tinha coragem de entrar. Sempre havia as decorações de Natal das vitrines do Mappin (em frente ao Municipal) e da Clipper (Largo Santa Cecília). Uma década depois, no meu primeiro emprego, como office-boy (como os filhos da classé média entravam no mercado de trabalho ainda estudantes, em uma época pré-motoboy), adorava me perder pelas ruas do centro entre compromissos em repartições públicas, ficando por dentro do que rolava na cidade e no mundo. Via os cartazes das pornochanchadas nos cines Olido e Marabá (Vera Fischer e Helena Ramos estrelíssimas, David Cardoso o poderoso garanhão), me atualizava folheando as revistas importadas - então caríssimas para o modesto orçamento de um adolescente - na Siciliano (Rua Dom José de Barros) e Agência Look (no Conjunto Zarvos, Av. São Luiz), comia cachorro quente no Largo do Café e depois traçava uma Banana Split nas Lojas Americanas (Rua Direita), comprava a prestação modelitos da hora na Peter's (Conselheiro Crispiniano, ao lado do cine Marrocos) ou o terno da formatura na Ducal (Rua São Bento) ou na Casa José Silva (Barão de Itapetininga), comprava discos na Breno Rossi (24 de Maio). Para trabalhos de escola, ia à Biblioteca Mario de Andrade (Xavier de Toledo) e ao arquivo de O Estado de S. Paulo (Martins Fontes). Quando tinha que ir um pouco mais longe, até a Junta Comercial do Estado de São Paulo, na Rua Maria Antonia, achava o máximo andar pela Boca do Luxo (Major Sertório e adjacências) vendo as fachadas das boates com suas promessas de prazeres proibidos (havia uma chamada Concorde, a Supersônica) com as meninas já à tarde fazendo a vida - e uns poucos travestis abusados (ali perto, o Arouche e a Vieira de Carvalho foram os primeiros points gay). Enfim, São Paulo era o centro e o centro ERA a cidade (hoje acho engraçado minha mãe perguntar "Vai pra cidade?"). Nos anos 80, o Centro para a nossa turma virou as lojas de discos nas galerias da Barão de Itapetininga (Wop-Bop e Bossa Nova), o velho Brahma (implico com sua atual encarnação Vila Olímpia/Madalena), o Almanara da Basilio de Gama (ainda está lá, firme e forte), o Terraço Itália (comemorei um aniversário no chá da tarde de sábado), a moda na Jean Daniel (Barão de Itapetininga, talk about fast fashion...) e na Mesbla (Dom José de Barros), a balada do HS (atual Bailão) e o Val Improviso (debaixo do Minhocão, com direito a briga de travestis e batida policial). Nessa época, eu mesmo morei por lá, na Marquês de Itu com Amaral Gurgel. Respirava a fumaça dos automóveis que passavam no Minhocão e era muito, muito feliz. Talvez, por tudo isso, não vou na Virada Cultural. Afinal, o centro é meu e está sempre a postos quando preciso dele (ultimamente tenho ido jantar no Chopp Escuro - Marquês de Itu - e me divertido um monte). Ah, tenho ojeriza à Praça Roosevelt ocupada pelos Satyros. Mas pra quem não sabe nem viu nada disso, boa Virada!
"Não sou conduzido, conduzo!" PS: Hoje este blog completa 5 anos. Mesmo assim, ainda não cheguei aos 100 mil acessos. Decididamente não sou popular. Ainda bem. Parabéns pra mim!
Escrito por Marioh às 15h03
[]
[envie esta mensagem]
[ link ]
Vontade de dirigir

Nunca aprendi a dirigir, portanto nunca tive um automóvel na vida. Também nunca passei aperto por conta disso e conheço São Paulo melhor que muito motorizado da vida inteira (me desloco pela cidade sem maiores dramas, evitando horários de pico e abusando das rotas alternativas. Alguns amigos andam me chamando de GPS). Pois não é que agora, quando todo mundo está preocupado com outros tipos de transporte por conta do caos urbano e do meio ambiente, eu me pego com vontade de sair por aí dirigindo pelas ruas da vida? Claro que como ser fútil e deslumbrado que sou, a chegada no mercado do Smart (pelo qual me apaixonei durante uma escala em Londres há três anos) e do Mini (aquele do Mr. Bean) tem muito a ver com esse estranho desejo. Ao mesmo tempo, como sou o mais preguiçoso e indisciplinado da galáxia, tá faltando uma certa iniciativa para acionar a auto-escola, fazer aulas, prestar exame e conseguir a carta de habilitação (esse objeto de desejo que a garotada de 18 anos almeja tanto quanto os Cruzados buscavam o Santo Graal). Mas, nos próximos dias periga de este que vos fala partir para este novo desafio (adoro receber aqueles e-mails do povo que se desliga da empresa alegando estar "em busca de novos desafios"). Não, eu não fui na festa de lançamento do Mini. Mas não resisti e, anteontem, entrei num Smart em exposição no Shopping Iguatemi - confesso ter achado muito mais interessante a recém-aberta loja do Christian Louboutin, logo em frente. Bicicleta? Nem pensar. Não quero acabar debaixo de um ônibus ou chegar todo desabado no trabalho ou em qualquer outro compromisso. Espero que não seja mais um fogo de palha daqueles que a gente deita e a vontade passa. Portanto, perseverarei (credo! que palavra é essa?) 
Pra ter fonfom...
PS: Não, eu não to com medo da gripe suína (quer dizer, só um pouquinho...). Mas vejo os hipocondríacos de plantão salivando diante de cada nova notícia sobre a pandemia. A morbidez das pessoas tem me assustado muito mais do que qualquer ameaça de cataclisma. E, por favor, não me fale em Susan Boyle...
Escrito por Marioh às 14h48
[]
[envie esta mensagem]
[ link ]
[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]
|