Grão Mogol by Marioh
   Mais Dercy

Triste ver como a nova geração não tem a menor idéia de quem foi Dercy Gonçalves além do expediente rápido e rasteiro da "velha que falava palavrão". Vejo isso espalhado não só pelas opiniões ouvidas aqui e ali, como também pela blogsfera (essa babel vulgar e convencida) e até no noticiário oficial (acusam Dercy de ser "antiga e preconceituosa" da mesma maneira que lamentavam Jorginho Guinle pelo fato de "nunca ter trabalhado na vida"). Visões estreitas e mesquinhas, para não dizer ignorantes. Enfim, conhecimento de causa e perspectiva histórica não fazem mal a ninguém antes de emitir qualquer opinião. Mas essas coisas, parecem, não costumam pegar bem ultimamente, quanto todo mundo acha até bacana não saber absolutamente nada porque, afinal, "não precisa". 

Lembrei também de outras pérolas by Dercy: 

"Agora todo mundo gosta de mim. Até a polícia." (em um dos aniversários de sua nona década, admirada com uma homenagem vinda da velha inimiga que a perseguiu durante mais de quatro décadas)

"Uma vez fui traída. Fui trocada por uma bailarina. É, mas não era bailarina chumbrega, não. Era bailarina clássica. Dessas que esticam as pernas e escostam a xereca no chão". (em um dos muitos espetáculos onde contava sua vida)

"Falaram que eu não gosto desse novo papa. Mentira. Eu gosto do papa, principalmente quando ele está com aquelas roupas bem enfeitadas, parecendo o Clóvis Bornay" (sobre o papa Bento XVI)

Xô, perereca!   



Escrito por Marioh às 17h51
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   Glória nacional

Dercy Gonçalves se foi no último sábado (19/07) aos 101 anos - 103 segundo a própria. É o século XX se despedindo através do passamento dos luminares que representaram o jeito de ser e pensar da época.

Para mim, Dercy é uma das primeiras lembranças de infância quando ela, já então uma senhora quase sexagenária, era estrela absoluta dos programas humorísticos da TV Excelsior (para sintonizar girava-se o seletor de canais até o número 9 - atual Rede TV). Toda quinta-feira, num programa chamado, se não me engano, Vovô Deville, entrava a Dercy em cena em algum sketch que eu não entendia bulhufas do enredo, mas ria que me acabava com a impagável cantiga A Perereca da Vizinha (anos depois, em uma entrevista no Roda Viva, Dercy contou que a música foi um improviso, feito num dia depois de enfrentar uma longa sessão de psicanálise - ela era adepta da prática). Meu pai não gostava muito que minha irmã e eu assistíssemos o programa da Dercy. "Essa velha desbocada é um atraso", reclamava. Mas não proibia. Então a gente se divertia. Desde então virei fã. E cada vez mais fui vendo que a atriz era puro reflexo do Brasil povão, popularesco, debochado e mambembe ("Sou mambembeira", declarava Dercy, com muito orgulho).

Fã declarado da atriz, Paulo Francis, em um de seus textos para a Folha de S. Paulo, lembrou a estréia de Dercy numa peça legítima nos anos 50 (até aquele momento, era marginalizada por seus pares devido ao estilo francamente chanchadeiro e performático - era uma show woman, antes de qualquer coisa). O teatro era em São Paulo e, na peça, Dercy fazia a mãe pobre que trabalha como faxineira num bordel para pagar os estudos do filho num colégio interno de primeira linha. Segundo Francis, toda a inteligentsia da época estava presente - além da classe teatral (era o grande momento do TBC), jornalistas e intelectuais - para ver Dercy tropeçar nas falas e se esborrachar no palco. Começa o espetáculo e a tensão só faz aumentar. Dercy se segurando para obedecer o texto e a platéia esperando pela inevitável catástrofe. A certa altura, quando a personagem recebe a visita de alguém lhe trazendo notícias do filho, ela pergunta se ele é bom aluno. O interlocutor responde que o menino é ótimo aluno, vai muito bem no inglês, inclusive, sempre cumprimentando a todos com um "good morning", um "how do you do?". Foi demais para Dercy. Ela olhou em volta, respirou fundo, fez cara de menina sapeca e sapecou: "Cu de quem?". O teatro veio abaixo e ela terminou a noite vitoriosa.

Era essa a faísca de gênio que fazia Dercy ser tão amada pelo povão e admirada pela elite. Ela era autêntica. Ponto. Vi Dercy em cena várias vezes e o script era sempre o mesmo, contando suas aventuras e desventuras desde que fugiu de casa, em Madalena, em 1924, até se tornar uma artista de sucesso. Mas o jeito como ela contava tudo era a sua pedra de toque - subindo ou descendo no escracho e na quantidade de palavrões de acordo com a pulsação da platéia. Mantinha todo mundo na palma da mão. Quantos artistas conseguiram isso?

Estive frente a frente com o mito uma única vez, há dez anos, num evento de lançamento de alguma coleção de moda num show room armado no hotel Sheraton, no Rio. Conversamos, rimos muito, claro, e ela ficou encantada com o ator Carlos Casagrande. "Puta que o pariu, que homem bonito. Mas é viado, não?", comentou. Apesar de dizer que não se interessava por sexo e não ter tido grandes casos de amor, Dercy adorava rapazes bonitos.

A seguir alguns hi-lites de Dercy Gonçalves que cito de memória (pode não ter sido exatamente assim, mas o estilo Dercy está intacto, garanto):

"Tive uma tuberculose e três maridos. Me curei dos quatro" (entrevista para revista Cláudia, nos anos 70)

"Fiz meu túmulo lá em Madalena. Uma pirâmide. Só eu e o faraó. Te digo mais, vou virar milagrosa, viu?" (para Marília Gabriela, em entrevista no SBT)

"É verdade, era uma LACUNA!" (no filme Dona Violante Miranda, de 1960, respondendo à pergunta "quem preencherá esta lacuna?", feita por um frequentador de bordel, no discurso de despedida de uma das "meninas" que vai se casar e deixar a vida)

"Sim, conheci o Walter Mercado, em Miami. Estava num restaurante e chegou aquela pessoa loira, com uma capa de seda, cheia de jóias, toda perfumada. Pensei que era a Hebe!" (no programa Amaury Junior)

"Hebe, já pensou nós duas, fanchas?" (no programa da Hebe, em uma das muitas discussões sobre homossexualismo)

"Minha filha, Dercimar, é muito católica. Ela vive querendo me levar na igreja. Diz 'vamos lá, mamãe, você acende uma vela'. Eu digo 'pra que? Daqui a pouco eu entrego pessoalmente'." (em alguma entrevista recente)

"É travesti?" (como a rainha mãe de Que Rei Sou Eu?, quando apresentada para a personagem de Mila Moreira)

Hoje pela manhã, em um telejornal da Globo, a filha de Dercy justificou porque vai fazer uma grande festa amanhã, em Madalena, durante o funeral da mãe. "Quando eu era criança, ela encostou a testa na minha testa, olhou nos meus olhos e disse: 'Nós vamos ser felizes na porrada!'."

Merci, Dercy!



Escrito por Marioh às 16h29
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