
Passei incólume pelo furacão Sexy and the City. Não que tenha desprezado a série ou simplesmente a deixado passar batido. É que nunca fui fã mesmo. Acompanhei alguns episódios da primeira temporada – transmitida no Brasil, nos idos de 1999/2000, pela HBO – e gostei muito do que vi. Porque era tudo que as outras séries americanas não se atreviam ser: politicamente incorreta (adorei a heroína fumante inveterada), irreverente, assumidamente fútil (e tome Manolo!), adulta e sem vergonha (Samantha Jones é um ícone de estatura maior do que Carrie Bradshaw – talvez daí as desavenças, muitas vezes insinuadas na mídia, entre as atrizes Kim e Sarah Jessica). Então, o seriado sumiu da tevê paga sem conquistar espectadores por aqui, apesar de ser um estrondoso sucesso internacional. Dois anos depois, caso você dissesse não conhecer SATC, era olhado com um misto de pena e desprezo. Mais do último, com certeza.
Assim chegamos a 2008 e aceitei fazer um programa com as garotas da redação para assistir o filme evento da temporada, no dia de sua estréia nacional. Cinema de shopping cheio – mas não lotado – mulheres, muitas mulheres (de várias idades, formas e cores) em duplas, trios, bandos ou acompanhadas de namorados e maridos pouco à vontade (heterossexuais masculinos nunca digeriram bem essas quatro amigas nova-iorquinas, criadas pela escritora Candace Bushnell com voraz apetite e atitude, até então masculinos, para o sexo. Eram o mito da “vagina dentada” montado em um par de Manolos, vestido no rigor do último grito da moda, com uma compulsão por discutir a relação enquanto bebe estilosamente litros de Cosmopolitan – a bebedeira, eis aí outro hábito apropriado diretamente do rol das proezas viris). Até o momento tenho visto a crítica cair matando sobre a encarnação cinematográfica da quatro garotas de Manhattan. E, do outro lado, as mulheres ansiosas, os gays desesperados e as bichinhas histéricas (todas devidamente mais calmas depois de terem visto pelo menos uma vez a fita) dizendo que o filme é simplesmente T-U-D-O. Devo dizer que é bem isso mesmo. Mas também aquilo. Por isso Sex and the City, o filme, é material do qual são feitas as boas matinês.

Big e Bradshaw: noivo neurótico, noiva nervosa
A equipe é a mesma do seriado, inclusive o roteirista e diretor Michael Patrick King e a figurinista Patricia Field (agora, vamos combinar que aquele desfile da seqüência da Semana de Moda é um pavor absoluto). Mas as amigas, além de mais velhas, estão às voltas com velhos fantasmas. Charlotte (Kristin Davis) e seu marido careca adotaram uma garotinha chinesa, completando assim seu enredo de casal perfeito de Park Avenue. A advogada Miranda (Cynthia Nixon) está tão mais caxias que a performance sexual escorre pelo ralo e abre uma brecha para um terremoto conjugal. Samantha (Kim Catrall), a bomba sexual de quase 50 anos, vira uma super executiva de Hollywood – empresariando seu jovem marido hearthrobe do cinema – mas tem dúvidas quanto a seu talento e adequação para o papel de esposa (mesmo sendo uma “Hollywood wife” no melhor estilo Jackie Collins). E finalmente Carrie (Sarah Jessica Parker), ainda uma viciada em sapatos e grifes, mas agora escritora de sucesso, namorada oficial do mr. Big (que é a cara de um amigo meu) e, claro, prestes a levá-lo ao altar. Lógico que o desenrolar dos acontecimentos é totalmente previsível. Mas quem está ligando pra isso quando se tem a fotogênica Nova York como cenário, uma trilha sonora repleta de efemérides pop (tipo Love Will Keep Us Together), um desfile de vestidos de noiva couture (as mulheres na platéia disparam “ooohhhs” e “aaaahhhs” a granel durante a projeção), boas piadas (uma delas bem escatológica e hilariante) e uma porção de observações espirituosas sobre a vida (clichês embrulhados para presente, como todo o resto da produção). Sim, o incidente responsável pelo conflito dramático está mais pra novelão do que pra comédia de costumes, mas o roteiro de boa carpintaria trata de colocar tudo em seu devido lugar no final. Como sempre aconteceu em Hollywood. Assim, a crise de meia idade de Carrie, Miranda, Charlotte e Samantha é daquelas que todos gostaríamos de ter.
Divertido, para apetites fashionistas, ver os coleguinhas fazendo eles mesmos na seqüência da sessão de fotos para a Vogue: a jornalista Plum Sykes, o diretor de estilo André Leon Talley e o fotógrafo Patrick Demarchelier. E um susto, para apetites cinéfilos, ver Candice Bergen envelhecida e matrona como a editora de moda da revista.
Só para lembrar que o criador da série, Darren Star, antes de SATC fez uma tentativa de outro seriado glamoroso passado em Nova York: Central Park West. Este sim um novelão de primeira, centrado em uma revista de moda tipo Vogue, com uma editora idealista (Mariel Hemingway) cercada de bitches por todos os lados. Um fracasso retumbante que durou apenas duas temporadas. Dessa eu era fã.

Fabulous four: Elas querem é casar