Meu Perfil
BRASIL, Homem, de 46 a 55 anos, English, Arte e cultura



Histórico


    Votação
     Dê uma nota para meu blog


    Outros sites
     UOL
     UOL SITES


     
    Grão Mogol by Marioh


    Crioula difícil

    Recebo um mimo da minha amiga Clô Lima: o filme clássico do gênero blaxploitation Foxy Brown (1974), estrelado pela diva colored Pam Grier. Uma falha no meu repertório cinematográfico que me apressei a corrigir. E me diverti de montão. 

    Filmes blaxploitation foram uma onda dos anos 70, pegando carona no movimento "black is beautiful" que ia do  radicalismo político dos Panteras Negras e da ativista Angela Davis (suas minissaias e penteado afro eram uma atração permanente do noticiário da tevê), passando pela luta pelos direitos civis dos negros americanos até o som dos Jackson 5. Eram filmes de baixo orçamento claro, sempre com uma pegada de ação, violência e sexo. Seu expoente mais famoso foi o antológico Shaft (1971). Mas havia bizarrices como Blácula (1972), o vampiro negão.

    Foxy Brown veio depois do sucesso de Cleópatra Jones (1973) - uma sereia negra, agente secreta do governo americano, interpretada pela belíssima Tamara Dobson. E principalmente embalado no sucesso de Coffy (1973), igualmente dirigido por Jack Hill e estrelado pela mesma Pam Grier. Foxy é ver pra crer.

    De cara tem uma abertura cheia de efeitos gráficos em cores saturadas com a Pam fazendo uma coreografia no melhor estilo chacrete (a música é de Willie Hutch, da Motown, claro) - pra ensaiar em casa e matar os amigos de vergonha na primeira festinha que se tiver uma oportunidade. E o plot é previsível: depois de perder o namorado policial infiltrado numa gangue de traficantes (o irmão dela entrega o tira para a bandidagem), Foxy resolve fazer justiça com as próprias mãos, peitos (e que peitões), muito polyester, saltos carretel e perucas kanekalon. Ah, ela também carrega uma mini pistola, com cabo de madrepérola, escondida no cabelo black power. Infiltra-se na "agência de modelos" de Katherine Wall (Katherine Loder, com cara de sambista da época) para ficar frente a frente com os assassinos de seu amado - que a essa altura também já despacharam o irrnão (Antonio Fargas, figurinha fácil em todos os filmes e seriados do período) desta para melhor.

    Hi-lites:

    - O encontro erótico de Foxy com o namorado (Terry Carter) num leito de hospital.

    - O bacanal de tiozinhos onde Foxy vai parar com a amiga piranha drogada (Juanita Brown, com cara de retirante).

    - Foxy literalmente quebrando tudo na briga do bar de sapatas, onde vai resgatar a amiga piranha drogada.

    - Foxy fugindo do barraco onde foi dopada com heroína e estuprada por dois velhos capiras (ela corta as cordas que a amarram com uma gilete alcançada com a língua. KINKY!!!)

    - O ajuste de contas final, quando Foxy entrega um presente pra lá de bizarro para a malvada Katherine.

    - Os diálogos politicamente incorretos, cheios de "mother fucker" e "nigger".

    - Os figurinos de Foxy, by Ruthie West, simplesmente i-na-cre-di-tá-veis.

    A moçada deve conhecer Pam Grier, hoje novamente nas paradas, de filmes como Marte Ataca, do Tim Burton; e, sobretudo, Jackie Brown, do Tarantino. Além da série The L Word, onde ela é a única não sapata.

     

    "Vô dá porrada em quem mexeu com o meu nêgo"  



    Escrito por Marioh às 14h33
    [] [envie esta mensagem] [ ]



    Cai o pano


    Saint Laurent por Andy Warhol


    Com a morte do francês Yves Saint Laurent, ontem em Paris, aos 71 anos, de causas ainda desconhecidas, encerra-se definitivamente o capítulo da moda do século XX. O homem frágil e genial, nascido na Argélia e lançado ao estrelato da couture aos 21 anos - quando substituiu o mestre Christian Dior morto prematuramente em 1957 - foi o nome mais importante da moda na segunda metade do século passado. Mais do que desenhar roupas, Saint Laurent fez história além do circuito restrito das maisons e das passarelas.



    Menino prodígio, continuou o trabalho de Dior assumindo a marca - na época um negócio que movimentava cerca de US$ 20 milhões de dólares anuais - e, quatro depois quando decidiu abrir sua própria maison, encontrou um sócio americano milionário disposto a bancar a empreitada porque seu nome significava dinheiro, muito dinheiro. Seu companheiro de vida, Pierre Bergé, assumiu a partir de então o papel de administrador em tempo integral. Foi o grande momento Yves Saint Laurent, quando abraçou todas as mudanças ocorridas nos anos 60, incentivando as mulheres a simplificarem o guarda-roupa sem perder o charme, a elegância e a feminilidade jamais.


    A coleção baseada no trabalho do artista plástico holandês Mondrian, de 1965, foi um marco devido ao uso da cor e das fornas simples adotadas no vestuário com o advento do prêt-à-porter, do qual Saint Laurent foi um dos precursores. Ao contrário da velha escola, que abominava a explosão jovem que tomava conta do planeta, Saint Laurent tinha a seu favor juventude e imenso talento para participar ativamente da revolução em curso. Chanel odiava a minissaia, declarando não haver nada mais horrível do que a visão de um par de joelhos. Schiaparelli, em sua aposentadoria, também repudiava as saias curtas e pedia à neta, Marisa Berenson, que não a visitasse "vestida de profissional" (isto é, "vestida de piranha"). Enquanto mestre Balenciaga dispensava a clientela milionária e fechava as portas de seus salões da Avenue Montaigne depois dos acontecimentos de maio de 1968.


    Já Saint Laurent floresceu. Ousou atravessar o Sena, saindo do território burguês da margem direita para inaugurar sua butique Rive Gauche, apresentando uma linha de roupas práticas e atuais acompanhadas por acessórios idem. Mergulhou com força na androginia, lançando o smoking feminino, em 1966, e redesenhando o "pea coat" dos marinheiros para as formas femininas. Fez um violento ataque público à burguesia, em 1968 (dizia, entre outras coisas, que os burgueses eram criativa e intelectualmente estéreis e representavam tudo o que ele era contra). E, finalmente, aconselhou as mulheres a usarem calças compridas em todos os momentos do dia. Aliás, ensinava que uma mulher realmente elegante precisava apenas vestir calças compridas, um suéter e uma boa capa de chuva. De quebra, ainda vestiu sua amiga Catherine Deneuve em A Bela da Tarde, o filme escândalo do espanhol Luiz Buñuel.



    Coleção Mondrian



    Deneuve e Buñuel


    Nos anos 70, Saint Laurent era mestre absoluto e o nome mais respeitado do métier. Vivia a rotina do jet-set, alternando o trabalho em Paris com temporadas no palacete que comprou em Marrakesh, no Marrocos. Havia rumores de festas de embalo e consumo de drogas. Porém, tudo isso fazia parte do espíritio da época e contribuía ainda mais para a imagem de artista rebelde e iconoclasta. Nesta época apareceu nu, fotografado por Jean Loup Sieff, para a campanha de seu primeiro perfume masculino. Fez coleções étnicas, com modelos vestidas como camponesas russas nos mais luxuosos materiais e bordados. Revelou sua predileção por modelos negras, fazendo da africana Katoucha e da martiniquenha Mounia musas. E provocou escândalo ao batizar um perfume com o nome de Opium ("Para viciadas em Yves Saint laurent" dizia a campanha publicitária).


    Verushcka e o safári YSL


    A partir dos anos 80 a figura frágil do estilista tornou-se visivelmente estranha. Ele aparecia no encerramento de seus desfiles com andar trôpego e ar distante. Pouco aparecia publicamente e não falava com a imprensa. Bergé o protegia de tudo e de todos. Falou-se mais sobre dependência de drogas (heroína) e várias doenças (depressão, derrame e até aids). O próprio confirmou ser dependente de barbitúricos, devido ao tratamento a que foi submetido depois de servir na Guerra da Argélia, no final dos anos 50, quando sofreu um sério colapso nervoso. Ao mesmo tempo era criticado pela imprensa por ter se tornado um conservador, fazendo releituras de seu próprio trabalho e não apresentando novidades há várias temporadas.


    Com a saúde cada vez mais comprometida, Saint Laurent não enfrentou bem o cenário da moda transformada em espetáculo multimidia globalizado. Fez ainda coleções muito aplaudidas (vi seu desfile de verão da alta costura em 2000, com um entusiasmado e reverente Jean Paul Gaultier sentado na platéia), mas finalmente se aposentou e saiu de cena em 2002. Na época disse que não havia mais na moda quem soubesse fazer um vestido de noite que desse a sensação de qua a mulher estava envolta apenas em uma nuvem de cor. Sobre o texano Tom Ford, que o substituiu quando sua marca foi comprada pelo grupo Gucci, declarou: "O pobre rapaz faz o que pode".


    Não veremos mais um talento como o de Yves Saint Laurent. Ele foi único e era o último de sua espécie.



    Au revoir!

    Leia aqui a palavra da especialista sobre Yves Saint Laurent. E aqui também.



    Escrito por Marioh às 01h05
    [] [envie esta mensagem] [ ]




    [ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]