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Revistinhas safadas

G Magazine, a primeira revista gay brasileira com fotos de nus masculinos, completa 10 anos. Meu amigo Haroldo Pereira, atual editor da publicação, convida para o cocktail de aniversário no próximo sábado (15/09) na The Week. G é uma publicação da Editora Fractal, para a qual trabalhei há alguns anos editando a revista Sexy (quatro meses divertidos dedicados às peladonas). Naquela época, G dava seus primeiros passos e fazia muito sucesso pela ousadia de seus nus hisurtos (pornografia, ou a insinuação de, é sempre um boom). O que me chama a atenção na revista é que, apesar da propalada atitude gay progressista, o conteúdo é muito conservador. E brega. Desde o editorial da proprietária (sempre falando do "amor em Cristo"), passando pelos colunistas (entre eles o equivocado BBB Jean Willys e o anacrônico João Silvério Trevisan), entrevistados e mesmo os peladões, tudo é provinciano e antigo. No ritmo do velho mantra "bicha também é gente". Enfim, uma tentativa de se fazer uma Playboy gay (e a próprietária mais de uma vez declarou que é isso mesmo). Pelo menos é uma publicação honesta. What you see is what you get. Agradeço o convite do Haroldo, mas declino. G e The Week não combinam.

Acaba de estrear nas bancas Junior, revista gay destinada ao público jovem, feito pela equipe do site Mix Brasil. Não tem conteúdo erótico e se pretende mais antenadinha e hype do que sua prima mais velha, G. Porém, seu primeiro número é uma decepção. Falta um detalhe fundamental: ser uma revista. Não é. Parece trabalho de faculdade (do tipo que reprova a turma toda). Falta ritmo, linha editorial, projeto gráfico, reportagem, staff, conteúdo instigante, notícia e um longo etc. É um enfileirado de tentativas de perfis, entrevistas (algumas com apenas quatro perguntas tolas e repetitivas) e editoriais que nada acrescentam. O jornalismo não tem reportagem, a moda não tem moda e o erotismo não é erótico. Minha pergunta é "Por que?"; "Pra que?" e "Pra quem?". Para macacos velhos da imprensa, como é o meu caso, fica evidente as matérias esticadas para render mais espaço (falta de anúncios ou necessidade de apresentar um número significativo de páginas?). Se a revista pretende ser trimestral, terá que pererecar para gerar conteúdo que sobreviva a três meses em banca. Também me espanta a autoglorificação de quem faz a revista antes mesmo dela chegar às bancas e às mãos dos leitores (tudo na base de adjetivos como "sensacional" e "supimpa". Estariam deslumbrados com eles mesmos?). Seria demais controlar um pouco (só um pouquinho) a ego trip e se concentrar mais na qualidade final do produto? (Não, queridos, vocês não vão reinventar a roda, colocar o ovo em pé nem revolucionar a imprensa mundial. Menos.). E qual a vantagem de dizer "já estamos trabalhando na edição número 2"? Fazer revistas é um processo industrial, portanto, deveriam estar trabalhando na edição número 3. Gosto do Marcelo Cia, editor da revista. E respeito o trabalho de André Fisher, diretor editorial, à frente do Festival Mix Brasil. Mas, fico devendo essa. Sorry, tem de ser do ramo, rapazes. Biotônico Fontoura pro Junior. Espero que, ao lançarem a correspondente lésbica, ela não se chame Sandy.
Compro na banca a revista Pref, publicação gay francesa. Conhecia a Têtu, mas Pref (de "preferência", título bem mais esperto que Junior) foi uma grata surpresa. Na verdade comprei a edição anterior a essa da foto, o especial Sexo. Vejo que Pref tem uma linha editorial mais alternativa e independente da grande mídia. Não está correndo atrás do hype. Tem textos caudalosos e vai fundo nos assuntos (até demais, como é praxe dos franceses). Tem um projeto gráfico bacana e uma atmosfera sensual/erótica adulta, sem frescura e nada hipócrita (não mostra um pênis ereto e depois apela para o "amor em Cristo"). É uma revista com começo meio e fim. Recheada de anúncios. Deve vender razoavelmente nas bancas e com assinaturas. Enfim, funciona. Por que será, não?

Enquanto isso, um aperitivo da mãe de todas: After Dark. Publicação gay americana nascida em 1966 e falecida em algum ponto dos anos 80 (péssima década para a comunidade gay, devido à epidemia de Aids). After Dark não se declarava gay e sim uma revista de entretenimento. Falava de cultura (música, teatro, balé, literatura, cinema, artes plásticas etc.), moda, noite e mondanité. Era classuda, bem humorada e um tantinho decadente. Me lembro também que no período de 1978 a 1982, a revsita GQ, publicada pela Condé Nast, era abertamente gay, ainda que não declarada, com uma cobertura da cena feita por gente grande. Seria muito pedir que nas novas investidas no jornalismo gay, os interessados pesquisassem melhor não só o presente, mas também o passado pra fazer um mix esperto e eficiente?
Enfim, enquanto esse dia não chega, dá uma olhada no Arnie publicado na After Dark:
Escrito por Marioh às 17h16
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Sabedoria fashion IV

"I don’t want to think of the number of hours of my life that have been spent waiting for a fashion show to start. But I tend to reserve a special place for the talented, so I don’t mind, especially if I’d just had a hamburger. Besides, you can feel as much contempt for the smooth-running, corporate-style fashion show as you can for the disorganized one. Choose your poison."
Cathy Horyn, editora de moda do The New York Times (à esquerda na foto, ao lado do designer de sapatos Manolo Blahnik e de Candy Pratts Price, editora de moda do style.com)
Para mais opiniões da moça, acesse: http://runway.blogs.nytimes.com
Escrito por Marioh às 12h54
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A few little things

Leio na presse internacional vivas e vaias para a coleção de Marc Jacobs (o moço na foto acima) na Semana de Moda de Nova York. Cathy Horyn, a invocada editora de moda do The New York Times, não só gostou como afirmou que Yohji Yamamoto, Comme des Garçons e Martin Margiela fazem esse tipo de moda conceito há tempos, porém sem influenciar o mundo real. Isto é, nenhuma mulher aparece vestida daquele jeito em nenhuma festa, nem as celebridades ousam desfilar assim em um red carpet. Mas, como Jacobs é uma das forças motrizes da moda atual (é o estilista por trás da poderosa marca francesa Louis Vuitton, do ainda mais poderoso conglomerado de luxo LVMH), esse estado de coisas pode mudar após a atual temporada. Nicole Phelps, do style.com, também gostou e chamou a apresentação de extraordinária. Já Suzy Menkes, do International Herald Tribune, e a mais respeitada voz fashion da imprensa, achou tudo ridículo e de mau gosto. "Um baile a fantasia", resumiu. E, assim como Horyn, lembrou que o expediente de fazer um desfile de trás pra frente (o estilista foi o primeiro a entrar na passarela e, na sequência, as roupas foram apresentadas na ordem inversa de um desfile comum) foi usado por Martin Margiela muitos anos atrás.
Marc Jacobs nos últimos meses tem enfrentado um extreme make over em sua vida pessoal. Assumiu publicamente sua paixão por um jovem michê, depois rompeu o romance para em seguida reatar e aparecer com o ex-rapaz de vida fácil, sempre aos beijos e abraços, em vários locais muito bem frequentados de Nova York. Durante esse tempo também emprestou a loja de sua marca, em Manhattan, para servir de cenário de um filme pornô gay. E, para completar, emagreceu, cultivou músculos, cortou os longos cabelos e posou só de cueca (para exibir o novo corpinho) para a revista gay Out (que o estampou na capa, publicando uma muito franca esntrevista com o moço). Portanto, era de se esperar alguma mudança também em seu trabalho. Então, não entendo porque o espanto geral.
Vi as fotos e o vídeo do desfile. Achei interessante, mas não desmaiei. Em todo caso, foi uma sacudida no marasmo que a moda tem apresentado nas três últimas temporadas (Nova York é a capital onde os desfiles são os mais boring possíveis). Valeu, Marc!
*Amigos me dizem que eu não entendi toda a extensão da força e contundência de The Bubble. Porém, muito mais gente me cumprimentou por ter chochado o filme. Então, tá tudo certo.
*Vejo uma nova publicação. É uma revista gay e se chama Junior. Hmmmmm... Fico à espera da Senior.
*Estou viciado na série A Prova de Tudo, com o intrépido Bears Gryll, no Discovery Channel.
ô, lá em casa!
Escrito por Marioh às 19h37
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Que Bolha!

Devo estar ficando cínico... Mentira! Sempre fui cínico, mas isso deve estar se acentuando com a idade (finalmente cheguei naquela altura da vida quando podemos colocar todas as culpas indesejáveis na idade). Enfim, não tenho a mínima paciência para aquele "vamos dar as mãos e cantar" em torno de unanimidades boazinhas, bacaninhas, "do bem". Digo isso depois de ver The Bubble (Buah, Ha- 2006), o filme gay do ano até agora. E as pessoas ficam meio sem graça quando digo que achei o filme beeeeem médio. Como ouso? Afinal, trata-se de uma releitura de Romeu e Julieta com a ação se passando em plena área do conflito judeus X palestinos e com dois rapazes (ooooohhhhh!) no lugar dos adolescentes amantes de Verona. Deve ser muita insensibilidade da minha parte. É, concordo. Deve ser mesmo.
O filme do diretor americano radicado em Israel, Eytan Fox, tem seus méritos, claro. Levanta uma lebre que a maioria das pessoas preferem não ver – o amor homossexual – em um meio social e político onde rusgas étnicas e religiosas vem quebrando o pau desde o Velho Testamento – sem data pra acabar. E mostra para o resto do mundo uma Tel-Aviv jovem, moderninha e agradável, longe do permanente estado de sítio que imaginamos ser o dia-a-dia de seus habitantes. Há até uma curiosa explicação para os arranha-céus bloqueando a vista do Mediterrâneo, contada pelo israelense Noan (Ohad Knoller) para o seu amante palestino Ashraf (Yousef Swaid). Além da atmosfera laid back de verão que embala a vida desses jovens – os outros membros da trupe são a fofinha e intromedida Lulu (Daniella Wircer) o afetado Yelli (Alon Freidmann) e seu belo e intolerante namorado Golan (Zohar Liba). Mas o filme se leva a sério e não pode se prender a esse estado de coisas leve, diáfano e inconseqüente, apesar do alívio cômico óbvio de algumas cenas esparsas (e a platéia do Espaço Unibanco MORRE de rir porque, afinal, estamos diante de um filme gay, não é mesmo?).
Mas em algum lugar tem algo que soa falso. Tudo parece arrumadinho demais para se conseguir o efeito desejado: o de ser cool & contundente. Noan ralha com as adolescentes que vão à loja de CDs onde ele trabalha em busca do novo álbum de Britney Spears: "Por que vocês não ouvem Rolling Stones?", pergunta. Para depois, quando já está feliz nos braços de Ashraf, tratar muito bem a moça brega que deseja o sucesso da versão israelense do reality show Ídolos. O casal também vai a um bar onde se apresenta a sensação cool & gay local, Ivri Lider cantando uma interminável e chata versão de The Man I Love dos irmão Ira e George Gershwin (não, a nova geração não faz a menor idéia de que George era gay enrustido... eles estão ouvindo a canção pela primeira vez e achando sensacional ela ser interpretada por um "ooooooh" homem). Em outro encontro, eles vão ao teatro assistir Bent, peça gay da Broadway de imenso sucesso no início dos anos 80 e que, mesmo lá – com Richard Gere num dos papéis – soava forçada e fake a cena de sexo sem contato fixo; um orgasmo induzido por palavras, porque esse amor que não ousa dizer seu nome supera tudo, até o Terceiro Reich (pffffffuuuuuiiiii!). Ah, e tem a rave pela paz entre judeus e palestinos que mais parece um luau no Litoral Norte... Enfim, falta punch!
Na festa de casamento da irmã de Ashraf, aparece a jovem Samira (Mira Awad) que, com uma única fala, oferece um argumento lúcido para a trama. Mas ninguém aqui parece estar afim de lucidez ("Eu quero magia", diria Blanche Du Bois, aquele perene ícone gay) e a violência dá um jeito de levar o filme ao seu final trágico e óbvio. O expediente da auto-imolação dos homens bomba parece datado, tresloucado e tolo diante de tanto espírito cool apresentado anteriormente. Não cola.
P.S.: Fico aqui pensando com meus botões o que aconteceria se um gay carioca classe média, das areias da Farme, se apaixonasse por um jovem habitante do morro que não vive do tráfico? Daria um filme? Eles se matariam cheirando cocaína ou se jogando no meio de um tiroteio entre policiais e traficantes? E alguém gostaria de ver esse filme? Enfim, fico pensando...
Escrito por Marioh às 19h29
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