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    Grão Mogol by Marioh


    Sai desse corpo que não te pertence!

                                                 

    Cinema e história em quadrinhos são, como tudo mais na cultura pop, frutos bastardos tentando alcançar o status de grande arte. Ambos têm lá seus momentos sublimes, mas a pecha de entrenimento de massa, na maioria das vezes, pesa e reafirma seu complexo de inferioridade diante da literatura, pintura e teatro. Claro que cinema e quadrinhos não se bicam. Ou melhor, os fãs de cinema vêem com total desconfiança a classificação "filme gibi", enquanto aficcionados dos quadrinhos ficam cabreiros quando se diz que tal "graphic novel" é um perfeito storyboard cinematográfico. Meninos brigando: "o meu é maior que o seu".

    Pois bem, essa rixa tola vem à tona com o lançamento de Constantine (2005), filme de terror exuberante baseado nos quadrinhos cult Hellblazer, produto da DC/Vertigo (aliás, quadrinho pra ser venerado pelos iniciados só pode vir com a chancela de cult). Leio que o filme é bobo pela tentativa de glamurizar um sucesso underground do mundo dos gibis. E também que a história original é um pasticho modernoso de film noir (quadrinhos seriam o filho bastardo do cinema?). Então vou conferir a polêmica in loco. E me divirto horrores (sem trocadilhos, please).  

    Constantine é um sarapatel saboroso, com referências deliciosas para ambos os lados. A fotografia é toda angulosa, como os desenhos em perspectiva oblíqua utilizada como efeito dramático nas revistas em quadrinhos. Ao mesmo tempo, o herói John Constantine (que os puristas queriam ver na pele de Sting - aaaaaargh!!! - a inspiração original do personagem) é cínico, sarcástico, anti-social e fumante inveterado como o Humphrey Bogart noir de O Falcão MaltêsÀ Beira do Abismo. O tipo que antigamente chamava-se "durão" e hoje conhecemos por politicamente incorreto (alguém pode me responder porque também nossa linguagem ficou tão hipócrita?). Some-se a isso uma dose cavalar de O Exorcista (John Constantine é o padre Karras em versão funk), o clima lúgubre e pessimista de Blade Runner (o apartamento do herói é cool de doer o dente em seu décor retrô futurista ) e efeitos especiais pegajosos na melhor tradição da vulgaridade histérica de Poltergeist. É alto kitsch, feito com verve e sem medo de ser feliz. Talvez por isso, cause uma certa indigestão (não se come uma feijoada ou um sarapatel impunemente) em paladares mais acomodados pela mesmice atordoante de Hollywood. Daí que o filme tem sido injustamente comparado a Van Helsing. Tudo bobagem. Constantine tem charme decadente e humor malcriado (a ironia da advertência  "fumar faz mal à saude" é uma das melhores sacadas da fita). Constantine é diversão das boas.  

    Mas vamos ao plot: John Constantine (Keanu Reeves) é uma espécie de tira sobrenatural, trafegando entre a Terra e o Inferno, caçando demônios para manter o equilíbrio entre o bem e o mal. Acontece que ele descobre que a membrana entre nosso mundo e os domínios do Demo está se rompendo, portanto algo precisa ser feito. Ao mesmo tempo, encontra-se com a policial médium Angela Dodson (Rachel Weisz, numa interpreção forte, pairando acima da ironia do roteiro) que tenta descobrir a causa espiritual do suícídio de sua irmã gêmea. Para resolver todo esse enrosco, Constantine conta com a ajuda de um assistente/aprendiz/taxista (Shia LaBeouf) e suas conexões com o macumbeiro de luxo Meia-Noite (Djimon Hounso, vestido à la Dolce & Gabbana e comandando um nightclub que é a mais perfeita tradução do termo "inferninho") e o arcanjo Gabriel (Tilda Swinton, deitando e rolando na pele de uma lesbian chic com apetite pela alta-alfaiataria e o minimalismo elaborado à la Helmut Lang). Há também o almofadinha demoníaco (Kevin Rosdale, de terno risca de giz) e o padre exorcista alcoólatra (Pruitt Taylor Vince). 

    Não vou cair no lugar comum e comparar Constantine à irregular trilogia Matrix (um filme bom e dois abacaxis) e repisar que Keanu Reeves não se livrou da pele de Nemo. Em Constantine, Keanu prova mais uma vez que a câmera simplesmente o adora e que ele sabe,como nenhum de seus pares, carregar um figurino high fashion. Mas vai ter ainda que rebolar muito pra mostrar que é um ator de peso. 

    Finalmente, um dado muito importante que talvez faça Constantine provocar certa aversão no espectador comum é o caráter camp impresso no filme (nunca li Hellblazer) pelo diretor Francis Lawrence, em sua primeira investida cinematográfica depois de se consolidar como diretor de vídeoclipes. Camp é aquele jeito afetado usado e abusado pelo humor gay. Pense na Karen de Will & Grace, pense na Samantha de Sex and the City, pense nas tresloucadas Patsy e Edna de Absolutely Fabulous. Isto é camp. E nada mais camp que a encarnação de Lúcifer em Constantine. O sueco Peter Stormare, de terno branco imaculado, faz um demônio todo cheio de trejeitos e deixa claro que não vai sossegar enquanto não possuir John Constantine de corpo e alma = a bicha velha cobiçando o garotão. 

    Ah, em Constantine, o Paraíso é art déco. Mais camp, impossível.

                                          

                                                                                                                                                               



    Escrito por M&M às 11h01
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