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    Grão Mogol by Marioh


    S'Wonderful!

    Não lembro exatamente quando vi Claudia Wonder pela primeira vez.  Com certeza foi na noite e pode ter sido tanto no Medieval, no HS ou no Val Improviso - os limites da cena de então, completado pelo Nostro Mondo, do qual nunca fui habitué. Afinal, na virada das décadas de 70/80 la Wonder já se sobressaía no circuito gay  (não, o GLBTH ainda não havia sido inventado) entre os travestis/transformistas que faziam shows de humor e dublagem. Havia a hilariante Makeba, que podemos considerar "avó" de Silvety Montilla - porém num registro mais refinado, menos agressivo. O caricato Zuraio, especialista em imitar as cantoras brasileiras desde as rainhas do rádio até as musas da MPB (fazia tanto Dalva de Oliveira, que ele amava, como Elis Regina, que odiava). Zuraio aliás, chegou a ser contratado para a linha de humorísticos do SBT, porém morreu pouco tempo depois e não teve chance de ser conhecido do grande público. E havia também Miss Biá, que prossegue firme e forte. Wonder, porém, como diria Katylene, era outra katchygurya.

    Na flor da juventude e com tudo em cima, tinha trocado a identidade do nascimento (Marco Antonio Abrão) por uma persona feminina atraente e exuberante. Por isso, minhas memórias da Wonder nessa época são de alguém muito alegre, simpática, animada e batendo papo com todo mundo. Sempre foi performática e como eu trabalhava para a Interview, a publicação mais descolada da época, acabei indo conversar com ela certo começo de noite em um lugar recém-aberto que ela mesma escolheu, num ponto meio escondido do Bixiga, e de nome super sugestivo: Madame Satã. Quando cheguei, fiquei meio sem entender se aquilo era um restaurante caído, um barzinho brega de música ao vivo ou uma resposta ainda mais alternativa para modernésimo Carbono 14 (meses depois descobriria que não era nada disso, mas era tudo isso também e muito mais, numa efeméride espetacular como São Paulo jamais havia visto e nunca mais viu).

    La Wonder estava vestida da maneira mais simples - top de alça, calça jeans, cabeleira afro - e com aquele sorrisão que era marca registrada. Conversamos, conversamos, conversamos e conversamos ainda mais um pouco bebendo muita cerveja que nos era servida por um rapaz bonitão e calado (Willians Jorge, irmão e sócio do Wilson, os donos da casa). O santo bateu e, mesmo Interview nunca tendo publicado a entrevista (foi considerada alternativa demais - as fotos, da estrela envelopada num bandage dress feito de sacos plásticos, eram de Vania Toledo) a gente ficou amigo. Quando lancei um volume da coleção Encanto Radical, da Editora Brasiliense, sobre Mae West, lá estava la Wonder na noite de autógrafos, de legging e suéter justo. Apresentei-a à minha mãe e ela ficou meio tímida, mas as duas começaram a bater papo. Mais tarde minha mãe comentou: "Que moça fina, educada e perfumada!".

    Pois no meio dos anos 80 a moça fina, educada e perfumada resolveu assumir PERFORMÁTICA com todas as letras e fez apresentações memoráveis no Satã cantando Venha Pra Barra Pesada, sua versão para Take a Walk on the Wild Side, de Lou Reed, mergulhando numa banheira cheia de groselha enrolada na bandeira do Brasil e exibindo a nudez homem/mulher.  Voz pequena, de basso profondo, mas uma intensidade cênica eletrizante. Depois foi para o teatro, onde fez várias peças e conseguiu o respeito de luminares como Zé Celso Martinez Correa, e até quando o cinema paulistano da Boca Lixo se rendeu ao pornô, ela fez filmes de sexo explícito. Sem cair do salto ou desfiar a meia, me disse: "Você sabe o quanto custa manter a pose, não é?".

    Quando os 80 viraram 90 e o rock indie deu lugar ao pop eletrônico la Wonder foi viver na Europa e ao voltar trouxe na bagagem o espírito ativista. Nunca mais parou de batalhar pelas causas que acreditava, principalmente o apoio aos trans e a luta contra a homofobia (de quebra, era síndica do prédio onde morava). Foi quando paramos de nos encontrar na noite e começamos a nos ver à luz do dia: no metrô, no ônibus, no supermercado, na Livraria Cultura etc. e era sempre alto astral. Nunca vi la Wonder triste, reclamando da vida, chochando alguém - e também nunca vi ninguém chochando ela. Uma vez eu tava de coração partido, triste, sozinho numa mesa do Ritz e ela veio falar comigo. Fiz minha cena de novela mexicana, ela me deu um beijo, passou a mão na minha cabeça e disse, com voz firme: "Você tem mais é que se apaixonar pelo seu trabalho". 

    Ultimamente nos falávamos via Facebook e na semana passada mandei uma mensagem pedindo um depoimento para uma matéria que estou escrevendo. Não houve resposta. Achei estranho. Mas não pensei em nada grave. Na manhã de sexta recebi a notícia de sua morte pelo mesmo FB. Fiquei muito triste e lembrei sobretudo do pito que ela me passou no Ritz e daquele sorrisão poderoso. 

    À noite, em seu velório na Secretaria da Justiça e da Defesa, no Pátio do Colégio - local mais apropriado impossível - foi emocionante ver amigos e admiradores aplaudindo o belo e sincero documentário de Dácio Pinheiro, Meu Amigo Claudia. Mas a cena que gravei melhor foi de um amigo de la Wonder, bem humilde, se debruçando sobre o caixão: "Tchau, Claudia. Vai com Deus. Cuida da gente, bi".  

    Vai cuidar, tenho certeza.  

      



    Escrito por Marioh às 16h09
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    Da aurora da minha vida

    Sabadão na Yabba*: (da esquerda para a direita) Eu, Marquinhos MS, Dinha Ferrero e Lucia Posas em algum momento de 1989

    Aí, hoje, o site deepbeep colocou no ar um set do DJ Marquinhos MS. Já escrevi sobre ele aqui no post inaugural do Grão Mogol (2004). Mas hoje a coisa é homenagem mesmo. No próximo dia 7 de abril serão 16 anos que ele se foi e alguém recuperou uma fita cassete de uma noite que ele fez quando era residente do Allure. Lisias Paiva, o pai da ideia, começou a falar sobre a preparação do post há algum tempo e eu acabei escrevendo um texto derramado sobre o Marquinhos, a cena de então e um pouco da nossa história (não há como não se derramar quando falamos de um amor). Aí, hoje deixei um post lá no site. Por isso resolvi republicar a seguir os dois textos.

    Smooth operator

    Well, Marquinhos MS… sou suspeitíssimo pra falar dele. Conheci em 1984. Numa noite de mau humor épico e ele foi chegando, conversando, e me ganhou em dois minutos. Me convidou para ir no Madame Satã, club que começava a chamar atenção mas ainda não era “O” lugar da noite paulistana que iria se tornar cerca três meses depois. Claro que estavam ele e Magal, brothers in “agulha de vitrola” que se revezavam nas picapes da casa colocando o povo pra dançar de uma maneira que até então não se vira por aqui.

    (Cabe um parêntese: a figura do DJ praticamente não existia na noite. Havia o responsável pelo som e só. Aliás, “Disc Jockey” era termo usado no rádio para apresentadores que faziam a própria seleção musical de seus programas. Na cena internacional, os profissional encarregado de tocar discos, era conhecido como “discaire”, o discotecário).

    Nosso primeiro encontro aconteceu no apartamento do Carlini, na Rua Dona Veridiana – Baixo Higienópolis, de onde saia grande parte das novidades que os DJs de então – o termo começava a pegar – tocavam na noite. José Roberto Carlini (1949-1994) era comissário de bordo da Varig e o som da noite paulistana deve muita coisa a ele, foi a primeira pessoa que vi usar piercing no mamilo e possuir um Walkman, em 1979, o ano em que caí na noite – onde permaneci até 2001, quando o barato ficou louco demais, sintético demais e divertido de menos pro meu gosto.

    Com Marquinhos (o MS foi incorporado mais tarde e até hoje eu não sei o porquê) foram dez anos de muita cumplicidade, companheirismo, diversão, descobertas, aprendizados e, sobretudo, som na caixa. Sim, ele não era das dez pessoas mais fáceis da face da Terra – nem eu – então houve bastante faísca, chuvas e trovoadas, mas a gente conseguiu administrar (o caldeirão da bruxa escorpião-peixes). Ainda tenho muitas fitas cassete gravadas pelo Marquinhos (sets que ele tocou ou feitas durante encontros que varavam dias e noites), mas não sei bem por onde andam. Sem dúvida, dentro de alguma caixa preta da minha vida. Era expert em sets hipnóticos com passagens imperceptíveis. Uma música emendava na outra. Sonoridades sobrepostas, trechos dissonantes insinuando-se no meio de batidas conhecidas, cortes abruptos para controlar a velocidade, equilibrar o colorido ou simplesmente to set the perfect mood.

    Confesso não tirar de letra, hoje, ouvir o que ouvia com ele – seja o que ele me apresentou ou eu pra ele. Lembro o dia que apareceu em casa com o single de Unfinished Simpathy, do Massive Attack (uau!!!).

    Na época do Satã,  Magal e Marquinhos muitas vezes passavam em casa antes de ir pro trabalho e o som da noite começava na minha sala (há testemunhas. Certo, Magal?). Pensando bem, nunca digeri totalmente sua morte – em 1994 – e ainda não é nada simples lembrar dele, falar sobre ele… Enfim, não foi uma coisa à toa. Marquinhos não teve tempo de fazer tudo que era capaz ou realmente mostrar a que veio. Muito do que ele falava nos anos 80 e 90, só veio acontecer nos anos 2000. Estava à frente de nós todos e alguns poucos entenderam.

    Meu amigo, meu amor, meu DJ favorito ever. ‘Nuff said!

    photo by Lucia Posas

    MARIO MENDES disse em 29 de março de 2010:

    E lá vamos nós. Marquinhos MS (Antonio Marco de Souza, como estava no RG) nasceu em 11 de novembro de 1963, em São Bernardo. Morreu aos 30 anos, em abril de 1994, uma semana depois do Ayrton Senna. Sua última residência como DJ foi no Cha-Cha-Cha, na Tabapuã, Itaim Bibi. Entre os locais onde ele e Magal tocaram estava o Anny 44, na Bela Cintra, onde hoje é a Lellis Trattoria. Era um lugarzinho underground bem no meio dos Jardins, teve vida breve, mas era muito divertido. Lembro ter dançado Primitive Painters, do Felt, naquela pista (right, Flavia, Waltinho???).

    Que mais? Ah, Marquinhos também fazia uma consultoria informal para a Rádio Eldorado (sim, éramos todos economica e marketeiramente ingênuos), colocando na programação as coisas que ele tocava na noite e não se ouvia em outro lugar. É mito aquela história de que nos 80, tocava The Smiths e The The no rádio. Não tocava. E se tocou depois, Marquinhos, Magal, Carlini, Pardal e até eu, tivemos alguma coisa a ver com isso.

    Outra coisa, Marquinhos fazia questão que o sound system de onde quer que ele tocasse fosse perfeito, flawless. Sempre dizia que não adiantava nada fazer um set bacana se a aparelhagem não correspondesse. Tinha que ter grave, agudo, reverberância; acreditva e buscava uma experiência sensorial. Ninguém entendia. Achavam que era chilique de prima donna. Ele chegava na minha casa, ligava meu som e me dava uma bronca, dizia que eu tava ouvindo tudo distorcido. Seu ouvido era absurdo (odeio esse termo, mas vá lá... era absurdo mesmo).

    Marquinhos tinha alma de artista e isso fazia toda a diferença.

    Só mais uma coisa: Marquinhos MS foi vítima da Aids, que ceifou tantos talentos jovens e promissores. E também nos levou Carlini, Eloy W e Paulo Santana, só pra citar alguns e ficar na cena noturna paulistana. Acho importante registrar isso porque hoje se age como se a doença não mais existisse. Não é bem assim.

    No mais, vou agora ouvir o set do meu querido Marcolino Panda, como eu o chamava.

     

    Faltou falar que os sets do Marquinhos eram muito sexy. Quer ouvir do que se trata? Vai lá 

    * Yabba-Dabba-Doo era a loja de discos que meus amigos Jorge Morabito e José Luiz da Silva tinham na rua Yayá, no Itaim Bibi, onde a gente ia todo sábado pra encontrar a turma e ouvir música bacana. Dinha hoje vive em Salvador; Lucia, em Londres.

     

     



    Escrito por Marioh às 16h47
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    Cool Britannia

    Acima, Alexander McQueen e sua fada madrinha, Isabella Blow, fotografados por David La Chapelle para Vanity Fair no final dos anos 90.

    Ah, the gay nineties! Última década do século XX e também sua última explosão de criatividade. Não, não foi renovadora como os anos 20, nem transformadora como os anos 60, porém foi o grande momento da moda como expressão e mídia. É nas passarelas daquele período que podemos ler como num afresco o que acontecia no comportamento jovem - da rua e da noite -  e a requintada decadência burguesa que atinge seu ápice em nossos dias. Supermodelos eclipsaram as estrelas de cinema, estilistas se tornaram superestrelas, stylists passaram a ditar tendências e jornalistas especializados no assunto atingiram o status de gurus. Foi quando Alexander McQueen surgiu na cena fazendo uma moda que flertava com arte, drama, terror, sexo e escândalo.

    Em um de seus primeiros desfiles, escolheu como cenário uma antiga igreja, enquanto as modelos ostentavam chifres. As roupas tinham uma pegada pós-punk-fetichista-histórica, como se Ana Bolena tivesse se tornado uma dominatrix chefe de gangue de rua. Não eram os trajes intelectualizados japonistas ou da escola belga, nem as elegantes pantomimas de Gaultier; era a excentricidade inglesa levada às últimas consequências sublinhada por um sorriso pessimista de escárnio. McQueen seduzia despertanto instintos diabólicos - definitivamente não era moda para gente "boazinha". "A moda é cruel", declarou Isabella Blow para a imprensa em um dos desfiles do protegido. Ela sabia o que estava falando. E como. 

    O mais surpreendente é que esse jovem rebelde, além de talentoso, era também um virtuoso do corte & costura. Formado na prestiigiosa e artística Central Saint Martins, seu treino profissional aconteceu na sisuda e metódica Saville Row ("Você pode passar até um ano apenas fazendo mangas de casacos e paletós, até atingir o domínio completo do ofício", contou-me certa vez Maria, garota portuguesa que trabalhava numa das centenárias alfaiatarias da famosa rua londrina). A roupa de McQueen impressionava sobretudo por sua construção impecável, às vezes imponenete e opressiva como um edifício gótico. 

        

    Também não era roupa pra quem gosta de coisas "bonitinhas". Um verdadeiro McQueen tem mais que personalidade, possui temperamento. A alcunha "enfant terrible", que pereseguiu Gaultier até quando o estilista francês já contava mais de 40 anos, nunca realmente colou no inglês Lee - como os amigos conheciam McQueen. Apesar de revelado ao mundo aos vinte e poucos, ele nunca foi um garoto bobo, "era maduro e seguro de si", observou Cathy Horyn, do New York Times.

    Tive o privilégio de ver ao vivo quatro desfiles do estilista, três de sua própria grife e um para a alta-costura de Givenchy - em uma rápida passagem como diretor criativo da tradicional maison parisiense (o drama descabelado de Galliano encontrou melhor destino sob a atmosfera rarefeita de Christian Dior). Depois de ver uma apresentação de McQueen, todo o resto parecia irrelevante. Modelos andando sobre um enorme espelho d'água vestindo roupas de proporções inesperadas, transparências debochadas e com acessórios de metal que pareciam agulhas gigantes perfurando a pele; mulheres com aparência de recém-violentadas perdidas entre carcaças de automóveis em um ferro velho improvisado num amrmazém localizado do lado errado - e perigoso - do Tâmisa; meninas-bonecas em seus amplos vestidos brancos, estampados e tingidos na hora por braços mecânicos armados com pistolas de tinta. Era mágico, instigante e perturbador. Mesmo na alta-costura, seu paraíso era homoerótico, com anjos sarados e mulheres desafiadoras em tailleurs pontiagudos, atormentados. Ao final do desfile de Givenchy, todo em mauve e num jogo de ambíguo homem/mulher, encontrei Isabella Blow e ela estava simplesmente siderada. Os dois se entendiam como poucos (a outra ponta do triângulo era o chapeleiro Philip Treacy). 

      

    Isabella nos deixou em 2007. Ingeriu veneno e amargou uma agonia lenta como quem duela com uma doença terminal. McQueen foi encontrado morto em sua casa londrina na quinta-feira, 11 de fevereiro. Também suicídio. Fala-se que ele sucumbiu à depressão pela morte de sua mãe, duas semanas antes. Mas como dizer o que vai na mente de alguém que tira a própria vida? A verdadeira razão, jamais se saberá. Permanece o mistério e a obra realizada por um grande gênio da moda. 

    Rest in peace. 

      

    E um pouquinho do desfile Alexander McQueen Primavera-Verão 1997

     

     

     



    Escrito por Marioh às 16h01
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    The Grão Mogol Interview 1: Danniel Rangel

    Não vejo muito meu amigo Danniel Rangel por uma simples questão geográfica. Moro em São Paulo e ele vive em Paris – com extensões em Nova York, LA e Rio. Mas nos falamos quase diariamente via telefone, e-mail, MSN, Facebook – sem contar suas visitas ao Brasil. Desde que nos conhecemos, no verão de 1999, nunca mais paramos de falar. Assunto é o que não falta. Daí, outro dia, ele brigando comigo porque não fui na exposição que ele fez este ano no Rio (Vera Valdez, o Sol da Maison Chanel), nem escrevi sobre a personagem no Grão Mogol, decidi que era hora de fazer uma entrevista com ele e publicar aqui. Isso faz alguma semanas e ele pegou no meu pé até pra eu subir o post. Porém, como tava em mais uma maratona de fechamento, demorô.

     

     

    Então, com vocês, Danniel Rangel e seu pensamento vivo sobre musas, amigos célebres, literatura trash e um pouco de erótica. O papo vai em duas partes porque, mesmo editado e cortado (deu trabalho, viu?), a gente fala pelos cotovelos.

     

     

     

    PS: Esqueci de perguntar por que ele é Da"nn"iel. Mas deve ser por causa da numerologia...

     

     

     

    Conheci você nos idos dos 90's e me identifiquei na hora por causa de uma musa em comum: Dercy Gonçalves. Depois descobrimos que gostávamos igualmente de Carmen (Miranda) e Marilyn (Monroe). Como você chegou em cada uma delas e por que o fascínio por essas mulheres? 

     

     Yes, nos conhecemos no final dos anos 90, verão de 1999, em uma festa com Elzinha Barrozo, na Joatinga, muitas garrafas de champagne...  Rio 40 graus. Afinal, não existe pecado do lado debaixo do Equador, não é mesmo? E eu, que de bobo não tenho nada, já era super fã de seus textos fabulosos para a Interview. Logo depois nos encontramos com Dercy em um hotel. Ela era de uma inteligência emocional muito grande, algo que Miranda e Monroe também carregavam em seu DNA. O que sempre me fascinou nelas foi o mistério em torno de sua aura. Por mais que causassem sensação nas telas ou nos palcos – e até mesmo expondo suas personas em aparições públicas – ninguém nunca viria a conhecer os verdadeiros nuances de suas almas. Hoje é tudo tão banal. Não quero parecer nostálgico, mas veja quem foi Marilyn Monroe e o que ela conquistou ao longo de uma trajetória meteórica (morreu com 36 aninhos). Além de ser  uma estrela e o símbolo de uma nação, conquistou os cérebros e corpos mais desejados do planeta: Montand, Brando, Olivier, Miller, Kruschev, os Kennedy brothers e até Carl Sandburg. Era respeitada por Odets, Tenesse Williams, Capote, Sartre, Nabokov e Stragsberg. Sem contar os diretores com quem trabalhou.

    Da mesma forma, Dercy saiu de Madalena e conquistou o Cassino da Urca, a Cinédia e a televisão sendo ela mesma. Sem falara em nossa Carmen, que com seis meses de EUA já tinha seus pezinhos e mãozinhas na calçada da fama em Hollywood. Até hoje nenhum artista sul-americano conseguiu tal façanha. Todas tinham algo mais, substância e vontade de ser melhor do que já eram. Por isso são eternas. Até hoje se expandem, criando algo mítico em torno de seus nomes. Isso me fascina.

     

    Agora você vem de Vera Valdez  (AKA Barreto Leite), que antes de ser performer extraordinaire da trupe de Zé Celso Martinez Correa foi musa e manequim chez Chanel. Qual o apelo de uma personagem desse quilate para a geração Facebbok & Twitter?

     

    Vera é um dos maiores personagens brasileiros do século XX, tal como Oscar Niemeyer. Foi esmagada pela ditadura e sobreviveu. Por ter sempre trabalhado com gênios, como Schiaparelli, Dior, Cocteau, Saint Laurent, Chanel, Malle, Cardin, entre muitos outros, nunca deixou de saber e reconhecer o valor que ela mesma tem dentro de si. Além de ter sido analisada pelo próprio Jacques Lacan, de quem foi amiga. É uma mulher forte e frágil, uma pessoa fabulosa que o Brasil deveria contemplar e homenagear mais. Por isso me veio a idéia de fazer a exposição O Sol da Maison Chanel, para mostrar um pouco mais desse personagem para o público brasileiro. É preciso reverenciar nossos mitos e pessoas especiais, levar a todos a informação de que antes de Gisele existiu Vera Valdez, uma mulher que até hoje brilha nos palcos do Teatro Oficina por amor a arte, algo muito “utópico” em nossos dias. Viva Vera!


    Afinal, você mora no Rio, São Paulo, Paris, Nova York, LA ou Cascadura? E qual o melhor lugar pra se viver num mundo que ficou tão pequeno?

     

    Acho que não consigo mais ficar parado em um só lugar. Sem nenhuma pretensão, digo que o destino me reservou esse tipo de vida. Adoro viajar e aprender. Este é o meu desejo hoje, mas quem sabe daqui um tempo eu sossego. Ou me apaixono e mudo tudo.  

    Conta como você encontrou o Bert Stern e o que aprendeu com o homem que fotografou Marilyn em seu último momento? 

     

    Bert e eu somos muito amigos. Ele não tem muitos amigos homens porque prefere as companhias femininas. Pra mim hoje em dia ele é família. Eu era, e sou, fascinados pela fotos que ele fez de Marilyn para a Vogue América, quando Diana Vreeland estava na primeira semana como diretora da revista, e sugeriu que MM fosse a capa. Então, eu liguei para o Bert em Nova York pedindo uma entrevista para a Vogue Brasil. Deixei recado na secretária eletrônica e não esperava resposta, mas um dia quando cheguei em casa tinha uma mensagem dele. Meu coração bateu forte, afinal Bert é um dos maiores mitos da fotografia mundial. Nos encontramos em seu apartamento, em Nova York, e ficamos amigos. A entrevista foi para a edição de aniversário de 28 anos da Vogue Brasil, e a foto da Marilyn que Diana Vreeland queria na capa da Vogue América 40 anos antes, acabou sendo capa da edição brasileira. Sempre que nos encontramos, em Paris ou NYC, trabalhamos e rolamos de rir. Trocamos muitas e idéias e falamos sobre Stanley Kubrick, o cineasta, que era o melhor amigo dele. Estar com Bert é sempre um grande aprendizado porque é um homem que passou por tanta coisa e ainda está por aqui, trabalhando e contando histórias através das suas lentes. Sobre Marilyn, ele me disse: “Depois que a fotografei ficou muito difícil fotografar e criar outra coisa, porque ela era tudo ao mesmo tempo. Era o cinema, a deusa e a garota da casa ao lado, com quem você quer se casar. Eu poderia ter deixado a câmera de lado, fugido com Marilyn e sido feliz para sempre”. God bless Bert!

     

     

     

     

    Com os amigos Bert Stern e Pat Kurs, em Paris

     



    Escrito por Marioh às 21h11
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    The Grão Mogol Interview 1 - Parte 2

    Danniel chez lui

     

    Ao mesmo tempo, também dividimos o mesmo interesse por um “walk on the wild side”. Em sendo assim, me fale dos atores italianos de filmes eróticos Gabriel Pontello e Rocco Sifredi, aque você conehceu. Existe vida inteligente no “mondo porno”? 

     

    Quem com mais de 30 anos nunca viu as revistas Erotik e Supersex, ou assistiu os vídeos estrelados por Rocco Siffredi? Afinal, eu tive infância (risos). No caso de Rocco existe sempre o sexo sem limites, sem pudor e que faria o Marquês de Sade cobrir as paredes da sua cela na  Bastilha com as suas fotos do ator  “in action”. Ele é algo selvagem que eu acho bem interessante. Já Gabriel Pontello, foi o rei do cinema e das revistas pornográficos europeus dos anos 70 e 80. Sempre com um tom de decadência do velho mundo: chateaus, Rolls Royces, cenários à la Helmut Newton... Mas também bastante kinky. Mordomos fazendo sexo com ladies, lordes  agarrando criadas lindas... E por que não? Afinal, tudo fica bonito em um ambiente civilizado. Conversei com os dois atores e posso dizer que sim, existia um lado intelectual nesse mundo pornô. Claro que eles não leram a Biblioteca de Alexandria inteira, mas são pessoas muito interessantes. Assim como o Harry Reems, o astro pornô americano de Garganta Profunda. Recomendo o documentário Inside Deep Throat, que vai muito além do mondo pornô, fala de politica, sexismo e discriminação. E afinal, quem não gosta de passear pelo “wild side”? It’s always nice to try something new and fun.


    Por falar em datar, Jacqueline Susann – outra de nossas musas em comum – envelheceu ou seus romances O Vale das Bonecas, A Máquina do Amor e Uma Vez Só Não Basta ainda dão no couro nesses tempos de exposição excessiva na mídia e Botox express comprado via infomercial?

     

    Esses livros são clássicos que jamais sairão da minha biblioteca. Ainda são cults nos EUA e pelo mundo afora.

    Porque o básico do show business continua o mesmo, não é? Acredito que o que ela escreveu nos anos 60 ainda continua atual. Só mudaram a fórmula e os nomes: antes tomava-se Nembutal, hoje é Ambion ou Lexomil. Antes era o doutor Feelgood com seu famoso “Fox hot shot” todas as manhãs, para que as estrelas funcionarem durante um dia de trabalho. Hoje Michael Jackson morreu por uma injeção de algo similar...  E o jogo de sexo, pílulas, cirurgia plástica, drogas, money, poder e influência continua como sempre. Então, Jackie Susann ainda está com tudo em cima.  

    Me conta o que você anda lendo, ouvindo, frequentando, vestindo, comendo... 

     

    Well, sempre começo um livro e paro no meio. Às vezes volto. O último foi Admirável Mundo Novo, que nunca consigo acabar. E também Venus in Furs, de Leopold Von Sacher Masoch. Leitura leve... (risos) Freqüentando, well... private parties, galerias de arte... Acobo de voltar de uma linda exposição em homenagem a Charlotte Perriand, sócia de Le Corbusier e a primeira grande arquiteta do século XX. A abertura da mostra acabou com um jantar cheio de conversas inteligentes e muito vinho. By the way, ando comendo muito pouco, afinal li em algum lugar que quem come menos vive mais. Vestindo... bem, gosto de tudo, mas tenho queda por YSL, e quando estou em casa não me preocupo muito com roupas. Se é que você me entende. Ouvindo? Ella Fitzgerald, Ertha Kitt, Lily Allen e Chopin.  


    Just for the record: idade? Formação? Estado civil? Religião? A verdadeira tonalidade do seu cabelo?
     

    Idade, não conto. Estado Civil, solteiro. Formação, “learn by living”. Religião, God and good vibes para todos. Cabelos,  nasci louro, mas depois fui ficando mais inteligente a cor mudou. (risos)  

      
    Pra encerrar, dê uma Dica Bafo!

     

    Ever noticed how “What the hell” is always the right answer?

     

     

    Com Vera Valdez em Paris, 2009



    Escrito por Marioh às 20h58
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    Vale a pena ver de novo

    Revejo pelo TCM, dentro do ciclo L'Amour Fou, Morte em Veneza (Morte a Venezia, 1971), de Luchino Visconti. Um daqueles clássicos que sempre permitem releituras e novas observações. Devo dizer que não é o meu favorito da Trilogia Alemã do cineasta italiano, mas é sem dúvida o mais visualmente deslumbrante (prefiro Ludwig, a Paixão de Um Rei, de 1972. E acho Os Deuses Malditos, de 1969, estranho e arrastado).

    Em Morte em Veneza há contribuições magistrais do diretor de fotografia Pasqualino De Santis, do editor Ruggero Mastroianni (sim, ele era irmão do Marcelo), do diretor de arte Ferdinando Scarfiotti e, sobretudo, do figurinista Piero Tosi (acreditamos que os personagens estão realmente em 1912, e não simplesmeste com trajes da época como em, por exemplo, Titanic). A direção é superlativa e cada sequência tem seu temperamento próprio. Porém, no afã de capturar por completo o espírito literário de Thomas Mann, autor do romance no qual o filme se baseia, Visconti - também autor do roteiro - inclui o personagem Alfred (Mark Burns) que em flash back discute com o compositor Gustav von Aschenbach (Dirk Bogarde, maquiado para se parecer com Mann) sobre a vida e a arte (lembrando de modo corriqueiro o embate Setembrini X Naphta, os intelectuais duelistas de outro clássico do autor,  A Montanha Mágica). O expediente faz uma barriga na narrativa interrompendo a fluidez da longa agonia de Ascenbach em sua paixão platônica pelo jovem adolescente polonês Tadzio (Björn Andresen, na foto acima), enquanto tenta superar o stress em férias numa Veneza ameaçada pela epidemia de cólera. Tudo embalado pela daramaticidade excruciante das Sinfonias Números 3 e 5 de Gustav Mahler, em quem o Aschenbach do romance foi baseado.

    Silvana Mangano como a mãe atristocrática de Tadzio e Marisa Berenson, como a esposa de Aschenbach, são luxuosos adereços de cena (etéreas e inebriantes visões de damas antigas) e temos um longo traveling na praia do Lido, com uma tocante ária cantada por uma mulher do grupo dos russos (assim como em A Montanha Mágica a geopolítica européia era reproduzida nas mesas do refeitório da clínica nos Alpes, Visconti aqui faz o mesmo com as cabines da praia). São momentos de gênio que fazem da experiência cinemtográfica grande arte. 

    Altamente recomendado.

       

    No fim de semana mergulhei na grande orgia romana pagã que é Satyricon de Fellini (1969). Está na programação deste mês do Telecine Cult. E il maestro nunca esteve tão atrevido e exuberante. Pauline Kael, a suprema crítica de cinema americana, implicava com Fellini e sustentava que seu Satyricon é uma coleção de fantasias obscenas de um garoto de colégio católico. Concordo, mas não acho que isso deponha contra o filme. Fellini sem os tipos bizarros, sem os aleijões que se exibem para a platéia, sem as safadezas vistas de relance, não é Fellini.

    Baseado no romance picaresco atribuído a Petrônio, contemporâneo do imperador romano Nero, Satyricon tem uma narrativa não linear - apenas trechos do manuscrito chegaram até nós e ainda hoje se discute que tamanho teria a obra completa. São as aventuras e desventuras de Encolpio (Martin Potter) às voltas com seu amigo espertalhão Ascilto (Hiram Keller) e o amante adolescente Gitão (Max Born). Nessas andanças, passa por um teatro mambembe  (que lembra muito o espetáculo do teatro de revista que o diretor coloca em seu filme seguinte, Roma) e vai parar no banquete/orgia do novo rico Trimalchão (Mario Romagnoli), pretexto para Fellini exercitar fantasmagorias debochadas e lascivas. A cenografia e os figurinos de Danilo Donati enchem os olhos e nos assombram por muito tempo depois de termos visto o filme. Capucine (na foto acima com Hiran Keller) empresta seu rosto de esfinge para a personagem Trifena, enquanto a turca Magali Nöel faz uma dança lúbrica e jogos lésbicos com outra convidada do bacanal. Donyale Luna, top model negra dos anos 60, faz Enotea, a mulher com quem Encolpio fica impotente. E Hilette Adolphe é a escrava do ménage à trois com Encolpio e Ascilto, em uma mansão deserta cujos proprietários acabam de se suicidar. 

    Giuseppe Rotunno fotografou e Ruggero Mastroianni encadeou as imagens num efeito hipnotizante de afresco (muita gente embarca nessa trip e pega no sono).  A trilha sonora tem colaboração de Nino Rota, o velho comparsa de Fellini, mas há outras sonoridades e canções igualmente hipnóticas que lembram o ritmo das tribos do deserto norte africano, num efeito moderníssimo.

    Satyricon merece ser revisto pelos mais velhos e descoberto pelos jovens.  



    Escrito por Marioh às 18h00
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    Troféu Abacaxi

    Nos anos 60 Chacrinha, o Velho Guerreiro, costumava oferecer o Troféu Abacaxi para os piores calouros que se apresentavam em sua A Hora da Buzina ("É hora, é hora, é hora/É Hora da Buzina/O programa que acaba quando termina/Tem o prêmio do cantor/Tem o prêmio da bailarina/Tem prêmios de valor/Só acaba quando termina/O Chacrinha comanda a Hora da Buzina"). Mais tarde, quando a esculhambação do apresentador virou cult, o troféu também virou. Agora observando o recente Prêmio Moda Brasil, noto que o formato original do Abacaxi do seu Aberlardo Barbosa vem novamente a calhar.

    Senão, vejamos: o Prêmio Moda Brasil realizado no final de outubro - em cerimônia bastante simpática na Casa Fasano - tem o intuito de contemplar os profissionais do setor e incentivar novos talentos (através de um cheque de R$ 50 mil para a categoria Revelação do Ano). Então vamos lá pra ver o que acontece e, apesar de toda a explanação dos organizadores sobre o processo de votação e o número de inscritos (mais de 30 na categoria Revistas ???????), fica tudo na base do "ói, nóis aqui otra veiz". Reinaldo, Glória, Herchcovitch, Costanza, Erika... the usual suspects. Não, que eu não ache as coleções de Reinaldo, Glória e Herchcovitch ótimas, mas vão ficar se revezando nos prêmios até quando? A própria Costanza, no discurso de agradecimento do prêmio de Jornalista, assumiu que escreve apenas uma coluna por mês, em Vogue - sem falar que ela não atua de fato como jornalista de moda há pelo menos duas décadas. Costanza, além de uma unanimidade é empresária de sucesso à frente da Tecelagem Santa Constancia e personalidade fashion inconteste. Full stop. 

    Entre os títulos indicados na categoria Revistas estava Joyce Pascowitch, outra publicação sobre a qual também não resta a menor dúvida, mas que não é uma revista de moda - nem pretende, acho eu. Programa de Tevê, de verdade, temos apenas um, o GNT Fashion de Lilian Pacce, portanto também deve permanecer colecionando troféus. Enquanto o site o EP está longe de ser o melhor em uma categoria morna - na verdade não temos nenhum site de moda instigante ou bacana. Enfim, fica difícil entender os meandros e critérios dessa premiação. A não ser que se assuma realmente tratar-se de uma província em momento de auto homenagem, seguindo a lógica da diplomacia cordial e da boa vizinhança que não assusta os cavalos nem acorda as crianças.

    Sim, houve a grande e mais que merecida homenagem à querida Regina Guerreiro, que simplesmente roubou o show. Suas frases antológicas, devidamente interpretadas com verve e malícia por uma Déboa Bloch inspirada, mostraram que ela ainda é voz única e solitária na moda brasileira. Não conheço outra pessoa que pense a moda da maneira tão pop, sagaz e ousada quanto ela. A ótima reportagem feita por Beth Orsini duas semanas antes da premiação, no caderno Ela, de O Globo, vislumbrou o verdadeiro tamanho da contribuição da Guerreiro no cenário nativo. Falei para alguém que me entrevistou na saída do prêmio, que Regina é parte da cultura nacional e não apenas da moda. Fiquei imaginando o que passava pelas cabecinhas fashion juvenis enquanto eram projetadas imagens de alguns dos trabalhos de Regina feitos para publicações como Cláudia, Setenta, Vogue e Elle ao longo dos últimos 40 anos. Não temos visto nada parecido hoje em dia, mesmo com toda tecnologia digital à disposição. Certa vez, em um depoimento, defini Regina como um mix esperto de Diana Vreeland, lady Macbeth e Dercy Gonçalves. Hoje digo que Regina é Regina. E fim de papo. 

       

    Baião de dois: Regina Guerreiro e moi même na noite do Prêmio Moda Brasil 

    PS: Não, ainda não fui ver o documentário Alô, Alô, Terezinha. Mas ouvi dizer que o diretor, Nelson Hoinef, se atém ao mundo cão da vida das chacretes pós Discoteca do Chacrinha e não à trajetória do Velho Guerreiro. A conferir.   



    Escrito por Marioh às 13h19
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    Quase Proust

     

    Na falta de um questionário Proust (aquele publicado na última página de Vanity Fair) respondo as perguntas enviadas pelo misterioso Nucool.

    Ele quer saber "Afinal vc é mais...?"
     
    CHICLETE ou ASA DE ÁGUIA?
    Sarah Jane 
     
    GESTÃO LULA ou FERNANDO HENRIQUE?
    Odorico Paraguassu
     
    ALCINO ou PALOMINO?
    Cathy Horyn
     
    LABIRINTUS ou 269?
    Substation South
     
    PASCOLATO ou GUERREIRO?
    Livio Rangan 
     
    RG31 ou BLACKOUT?
    Beg your pardon... 
     
    Z CARNICERIA ou ASTRONETE?
    Spazio Pirandelo 
     
    BALADINHA ROCK ou ELETRÔNICA?
    Som de Cristal
     
    ATIVO ou PASSIVO?
    Lésbica separatista
     
    MEGAN FOX ou LOVEFOXXX?
    Dúvida cruel: Twentieth Century Fox ou Foxy Brown?
     
    MODA PARA VIDA REAL ou MODA PARA SONHAR?
    Roparhara, moda exótica
     
    VIAGRA ou CIALIS?
    Cielo, César Cielo
     
    VEGAS ou D-EDGE?
    Napalm  
     
    PRETO ou COLORIDO?
    Nude
     
    SEXO COM ou SEM BEIJO?
    Morde e assopra
     
    HERCHCOVITCH ou DUDU?
    Christine Yufon  
     
    JUNIOR ou DOM?
    Sean Cody 
     
    ANOS 80 ou 90?
    Gay nineties... 1890's 
     
    FERNANDA YOUNG ou MARILIA GABRIELA?
    Xênia... e você   
     
    LONDRES ou BERLIM?
    Samarcanda
     
    CAFÉ ou CHÁ VERDE?
    Chimarrão
     
    CACHORRO ou GATO?
    Tiranossauro Rex
     
    REICH ou FREUD?
     Jung
     
    RJ ou SALVADOR?
    BH (Beverly Hills)
     
    CIDADE JARDIM ou IGUATEMI?
    Burlington Arcade    
     
    DONATA ou ELIANE?
    Eliete


    Escrito por Marioh às 14h45
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    Não falei sobre...

    ...a morte do americano Irving Penn em 7 de outubro último, aos 92 anos. Um dos maiores fotógrafos do século passado e uma das mais longas carreiras no métier, cobrindo do final dos anos 40 até praticamente ontem. Apesar de famoso pelos instantâneos de moda e beleza (colaborando primeiro com Harper's Bazaar e em seguida com Vogue), realizou em estúdio uma série de retratos antológicos de grandes personalidades internacionais (Picasso, Stravinsky, Dietrich, Duchamp...) que primam pela dramaticidade e ausência de detalhes. Os fotografados eram posicionados em um canto onde ficavam praticamente acuados pela câmera de Penn. Casou-se nos anos 50 com sua modelo favorita, a sueca Lisa Fonssagrives, então na ativa desde a década de 30, tendo trabalhado com os históricos Hoynigen-Huene e Horst (apesar do currículo, ela costumava dizer nunca ter sido mais do que "um bom cabide"). 

    A imagem acima é dos anos 2000 para Vogue América, onde contribuía - pelo menos nos últimos 20 anos - em todas as edições ilustrando as páginas de saúde, beleza e/ou culinária (um simples ovo frito virava uma obra de arte surrealista sob as lentes do fotógrafo). Além de matérias de capa como um deslumbrante ensaio com Nicole Kidman.  E uma coisa que eu não sabia: ele era irmão do diretor de cinema e teatro Arthur Penn, autor de clássicos da tela como Caçada HumanaUma Rajada de Balas e Pequeno Grande Homem. Família boa, não?

     

    ...a morte de Dominick Dunne (à esquerda na foto acima com seu filho ator Griffin Dunne, o irmão escritor John Gregory Dunne e a cunhada escritora Joan Didion), aos 84 anos, em agosto. Fiquei fã do jornalista e escritor americano quando comecei a ler seus perfis de celebridades para Vanity Fair, nos anos 80 (mais tarde reunidos no volume Fatal Charms and Other Tales of Today, onde se destacam os encontros com Elizabeth "não me lembro de uma época da minha vida em que eu não tenha sido famosa" Taylor e Claus Von Büllow, playboy internacional acusado de induzir sua eposa milionária Sunny a um coma do qual jamais sairia - ele foi absolvido e hoje vive em Londres). Depois devorei seu primeiro romance The Two Mrs. Grenville, baseado num rumoroso caso de 1955, quando uma socialite de Nova York - ex-corista da Broadway - alvejou seu marido com uma espingarda alegando em seguida tê-lo confundido com um assaltante. A personagem real, mrs. Woodward, já havia aparecido no infame capítulo La Côte Basque do nunca terminado Answered Prayers de Truman Capote - texto que levou o autor de A Sangue Frio à desgraça entre os ricos, finos e chiques de Manhattan - mas Dunne, além de ter mudado o nome dos personagens, parece ter acrescentado muito pouco de ficção à suculenta realidade do escândalo. Em seguida veio People Like Us, um corte revelador da mesma sociedade nova-iorquina em tempos de arrivismo à la Donald Trump e novos impactos de comportamento. Uma das personagens socialites, a esnobe Lil Altemus, não conseguindo digerir a homossexualidade do filho e, pior ainda, a ligação dele com o sobrinho da empregada porto-riquenha, passa-lhe cartelas de barbitúricos ocultas num pacote de revistas ao visitá-lo no hospital, onde ele enfrenta complicações decorrentes da Aids. Como quem não quer nada, fala que ele não é o único caso de homossexualidade na família, porém esses antepassados foram honrados o bastante dando uma solução discreta e final para esse tipo de situação embaraçosa. Era esse o ambiente onde Dunne transitava e sabia reportar como ninguém. Claro que depois de People Like Us (mal traduzido no Brasil como Os Colunáveis) muitas portas lhe foram fechadas.

    Mas Dunne possuía outra fixação, a Justiça. Sua filha Dominique foi morta por estrangulamento pelo namorado e este absolvido. Dunne não se conformou com o veredito e a partir de então entrou numa cruzada pessoal. Munido de uma nova identidade profissional como jornalista - havia sido produtor de cinema em Hollywood nos anos 60 e, em seguida, caído em desgraça na comunidade cinematográfica - cobriu todos os casos mais rumorosos que frequentaram os tribunais americanos nos útlimos vinte e poucos anos, indo muito além das evidências apresentadas em corte, obtendo informações e declarações que nem a promotoria ou a defesa dispunham. Foi assim no caso dos irmãos Menendez - massacraram pai e mãe a tiros por uns dólares a mais - do ex-ídolo do futebol americano e ator O.J. Simpson e, mais recentemente, na morte do milionário Edmond Safra cujo enfermeiro particular era acusado de ter provocado o incêndio que vitimou o patrão. Aliás, dizem que durante a cobertura deste caso Dunne desenvolveu uma fixação platônica pela viúva do banqueiro, a brasileira Lily Safra. 

    Nos últimos tempos, vivendo entre Connecticut e Nova York, Dunne mantinha coluna fixa em Vanity Fair. Um diário onde registrava andanças pelo grand monde (entrega do Oscar, Festival de Cannes, temporada social londrina, alta-costura em Paris, encontros com celebridades como Kate Moss em Manhattan) e, claro, julgamentos. Não ficou satisfeito também com o veredito de inocente para Michael Jackson pelas acusações de pedofilia. 

    Jamais se recuperou da morte da filha (uma atriz em começo de carreira que pode ser vista como a filha mais velha da família assombrada de Poltergeist) e mantinha uma relação tumultuada com o irmão, o escritor e roteirista John Gregory Dunne, com quem ficou sem falar durante dois anos devido à divergências de opinião sobre o julgamento de O.J. Simpson. Seu filho Griffin Dunne (mais lembrado como o yuppie pateta de Depois de Horas, de Scorcese, ou o milionário pateta de Quem é Essa Garota?, com Madonna) dá um depoimento emocionado no report sobre a morte do pai na edição de novembro de Vanity Fair.  

    É uma voz da qual sentirei falta. 



    Escrito por Marioh às 20h29
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    Afinal, pra que serve a crítica?

    Post excelente do blog do Inácio Araujo.

    Vai lá



    Escrito por Marioh às 18h03
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    Teste, teste..

     

    Som! Soooom!



    Escrito por Marioh às 10h37
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    Instamatic

    Cena da antológica montagem de Macunaíma, de Antunes Filho, clicada por Vania Toledo (1978)

    Voltei!

    Tava ausente, viciado no Facebook (sim, eu tenho problema com drogas...). Tudo bem que Alê Farah salientou o fato de blog ser "so 2006", mas como outro dia cheguei à conclusão que datei (apesar dos testes de carbono 14, ainda não se precisou a data exata), vou blogando de vez em quando pra não perder a prática.

    Daí, hoje de manhã chego na redação (meu chefe disse: "A expressão 'aqui na redação' é tão antiga") e encontro sobre a mesa um exemplar de Palco Paulistano (257 págs., Imprensa Oficial), da minha amiga de longa data Vania Toledo. Apesar de nossa amizade já durar três décadas, confesso que conhecia pouco o trabalho de registro teatral de Vania. Claro, acompanhei de perto a paixão da fotógrafa pelo teatro e a vi diversas vezes em ação na platéia, na coxia, no palco e em vários ensaios, mas não tinha noção do tamanho desse arquivo (se conheço bem Vania, a edição do livro contempla apenas uma pequena parte do que ela vem clicando nos palcos da vida desde o final dos anos 60). 

    Palco Paulistano é desses coffee table books de responsa: edição caprichada, direção de arte competente, impressão de alta definição. Por isso, uma simples folheada já constitui uma viagem em si. Podemos rever, conferir ou descobrir imagens de alguns de nossos maiores performers em grandes momentos. São instantâneos fortes que nos colocam no centro de espetáculos marcantes como Cemitério de Automóveis (1969), Fala Baixo Senão Eu Grito (1969), O Balcão (1969), Apareceu a Margarida (1973), Trate-me Leão (1977) e Salomé (1997), entre muitos outros.

    Temos Raul Cortez em diversas épocas (seu retrato em Ah!América é um dos pontos altos do livro), Paulo Autran, Marília Pêra, Lilian Lemmertz, Sergio Mamberti, Tonia Carrero, Odete Lara (fumando um baseado das mãos de Odavlas Petti), Cleyde Yáconis, Regina Casé, Dedé Veloso, Marco Nanini (impressionante em Os Filhos de Kennedy), Irene Ravache, Regina Duarte, Vera Zimermann etc etc etc. Devidamente capturados em toda dramaticidade do preto e branco (Vania adora um chiaroscuro). Na capa, um muito jovem e esguio José Wilker com Rubens Corrêa, em O Arquiteto e o Imperador da Assíria (1970).

    O mais legal de tudo isso é ver Vania abrindo seus arquivos (praticamente tudo e todos que passaram pela vida da fotógrafa nas últimas quatro décadas mereceram um clique) e sendo redescoberta por uma nova geração. Ano passado ela fez uma esfuziante crônica pop/fin-de-siécle da cena noturna (anos 70 e 80) com a exposição Diário de Bolsa, na Pinacoteca, mostrando que muito antes das câmeras digitais, já registrava tudo munida de uma inseparável Yashica (batizada "Nhá Chica", por Gilberto Gil) que carregava na bolsa. Now, THAT'S modern!   

    A edição de Palco Paulistano é bilingue (português/inglês) e mereceu lançamento hype/culturete na última Flip, em Paraty.

    Valeu, Vania. Adorei o espetáculo. Merda!

      

    Olha a Vania, com Maria Della Costa, no lançamento do livro na Flip (foto de Daniel Deák/Glamurama)

    Para mais clics de Vania Toledo, clique aqui



    Escrito por Marioh às 17h11
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    O vídeo matou a rainha do rádio

    Emilinha Borba,  "a maior" da Rádio Nacional (anos 50)

    Li no blog do Nelson de Sá,  Toda Mídia, que Facebook e Twitter mataram o Blog. Mas já? Quer dizer, como leitura continua, mas como criatividade de conteúdo seu tempo já passou. Resumindo: ... mórreu! Afinal, é muito mais fácil Facebookar ("Colhendo amoras no campo com os Teletubies!") e Twittar ("Onde é a balada, galera?), do que blogar. Até eu, que adoro me derramar em posts caudalosos ("Mario, escreve menos", protestou um amigo certa vez, to no avail...) ando passando mais tempo no Facebook porque to achando divertido (sim, é mais ágil e menos cafona do que o Orkut, mas a patetice da maioria dos posts é igual que nem), porque gosto de uma boa futrica e porque sou novidadeiro (até agora não a ponto de twittar).

    Agora leio na edição de Agosto de Vainity Fair, James Wolcott perguntando "O que será do esnobe cultural?" .  Como faremos para nos distinguir dos meros mortais através dos livros, músicas e filmes que gostamos sem poder exibi-los publicamente - já que tudo agora é uma questão de download e armazenável em gadgets portáteis? "Livros não apenas podem mobiliar um cômodo (...) como também fazer as vezes de acesórios para nossas roupas. Ajudam a marcar nossa identidade. Entretanto, com a velocidade do progresso tecnológico, podemos eventualmente ser apanhados culturalmente nus em meio à selva urbana", chama a atenção Wolcott. Na mesma batida, penso em como desvendar, através do gosto pessoal,  a personalidade de um novo(a) conhecido(a) se os signos de conhecimento não estão mais visíveis no ambiente onde vivemos - livros, música e filmes estão ocultos no master computador da casa. Podemos saber apenas se é o caso de uma pessoa Apple ou Microsoft.  

    Lembro de ter entrevistado certa personalidade televisiva - tida em alta conta enquanto pessoa conectada ao erudito e ao alto pop - e, numa rápida escaneada por biblioteca, CDs e posters de cinema nas paredes, pude detectar um conhecimento bem mediano para alguém que se leva, e é levada, tão a sério. Havia também escolhas de artes plásticas basatante duvidosas e algums objetos kitsch bem interessantes se encarados como tal - era eviedente, pela modo da exposição, serem reverenciados como algo de impactante modernidade. 

    Enfim, é o novo invadindo nossas vidas na velocidade das grandes mudanças de hábitos sociais. Abrace, mas sem esquecer o passado. 

    Daí, nessa onda das novas tecnologias substituindo as antigas, destruindo uma ordem a qual estávamos acostumados, lembrei dos Buggles, com seu hit de 1979, Video Killed the Radio Star. Não poderia deixar de postar para os meus queridos leitores que não aguentam mais Michael Jackson.       

    Ah, just for the record: Continuo fã da Emilinha!



    Escrito por Marioh às 13h20
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    Don't stop till you get enough

    O excesso matou Michael Jackson.

    Excesso de sucesso, de mídia, de adoração, de bajulação, de talento, de aberração, de cirurgias plásticas, de substâncias químicas, de royalties, de dólares, de patrocinadores, de dívidas, de delírios, de problemas, de mentiras, de cosméticos, de brinquedos, de Elizabeth Taylor- Hollywood - Las Vegas, de mal entendidos, de especulações, de solidão, de desejos reprimidos, de prazeres proibidos, de parentes serpentes, de inveja galopante, de ritmos alucinantes, de vertigens, de genialidade. 

    Foi demais para um garoto só. 

    Já deve estar trocando receitas de maquiagem com Marilyn, ensinando Elvis como se faz o moonwalk e, como gentleman que se preza, desculpando-se com Farrah por tê-la varrido do noticiário. Claro que logo mais, à tarde, a princesa Diana receberá todos para um tea dance.

    It's gonna be a helluva party! 

    Agora é com você, Madge.     



    Escrito por Marioh às 14h14
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    Bye, Michael (1958-2009)

    The biggest selling album of all time!

    Dizer o que mais?

    Let's rock the night away!



    Escrito por Marioh às 20h01
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